terça-feira, 1 de outubro de 2013

Distopia

A Literatura da Distopia
publicado em artes e ideias por sergio coletto

Foram necessários romances que mostravam bárbaros regimes totalitários, fábulas com porcos, gangues violentas, controle biológico, uso indiscriminado de drogas e queima de livros para finalmente entendermos como era impraticável o modelo de utopia construído há alguns séculos atrás. Por isso são tão importantes os autores de "1984", "Laranja Mecânica", "Admirável Mundo Novo" e "Farenheit 451".


Como vimos no já publicado A Literatura da Utopia, as tentativas de adequação do presente para alcançar uma sociedade perfeita acabaram por desencadear uma desordem na organização racional do mundo. Muitas vezes, fizeram-nos viver submetidos a valores distorcidos e no risco de uma eterna aceitação de fatores hostis que são meio para um fim que parece justificá-los: a perfeição.

Ao perceberem isso, autores como Aldous Huxley e George Orwell resolveram desconstruir os conceitos de utopia existentes. Segundo eles, a moralidade humana não conseguiria seguir uma evolução tão ligeira e, mesmo nos casos em que as sociedades perfeitas são alcançadas, a personalidade corrompida do homem colocaria tudo a perder.

As chamadas distopias podem ser entendidas filologicamente como "utopias negativas". Este neologismo foi cunhado por Gregg Webber e John Stuart Mill num discurso ao Parlamento Britânico em 1868: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamar-lhes utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos, ou caco-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável."


Na literatura, as utopias sempre possuem raízes no presente e são taxadas como o caminho ideal a ser seguido - mesmo que impraticável. Nas distopias, não há qualquer ligação com o presente: partem da utopia já alcançada. Nelas, os problemas atuais seguiram como que camuflados pela perfeição aparente e, a certo momento, eclodem da forma mais bruta. Estes romances geralmente são contados do ponto de vista de um personagem consciente imerso na estupidez coletiva. São explorados recursos como a coerção física e moral, o uso de drogas e robôs e o monopólio do conhecimento, todos agindo de forma direta na contenção social

A atual idolatria ao gênero literário pode ser explicada pela crescente visibilidade da política esquerdista no âmbito contemporâneo. Vários dos autores desta "escola" foram ativistas políticos da oposição e deixaram claros seus fundamentos no pensamento Marxista. George Orwell, por exemplo, conviveu muito tempo com pobres e operários. Apesar de odiar os conflitos entre os partidos esquerdistas, dizia-se socialista e simpatizante de partidos anarquistas. Conseguiu se tornar um crítico de sua própria ideologia: suas magnum opus são 1984 e A Revolução dos Bichos (O Triunfo dos Porcos, em Portugal); na primeira retrata um regime totalitário que, através de constante supervisão e monopólio da História, constrói uma sociedade coletivista auto-punitiva; no segundo, uma sátira direta ao stalinismo mostra que o governo do Estado sempre será suscetível às fraquezas humanas, desmembradas pelo caráter sedutor do poder.

Outros autores também levantaram questões que hoje se mostram mais presentes do que nunca. Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo - escrito num período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial -, descreveu um futuro hipotético onde estaríamos aprisionados pela obrigação de bem-estar, seja através da divisão social, do uso indiscriminado de drogas reguladoras ou do controle biológico - uma espécie de eugenia. Isso numa época onde tentativas de clonagem e fertilização in vitro não passavam de experiências fracassadas.






sergio coletto está convencido de que vai entender o mundo através de papéis velhos e amarelados. Saiba como fazer parte da obvious.

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2011/01/a_literatura_da_distopia.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+OBVIOUS+%28obvious+magazine%29&utm_content=Yahoo%21+Mail#ixzz2fReZT9c1

Ecologia

“A última grande exploração é para sobreviver sobre a Terra”

por Anna Shen, da IPS
Robert “A última grande exploração é para sobreviver sobre a Terra”

Robert Swan na Antártida.

São Francisco, Estados Unidos, 16/9/2013 – Recém-chegado de Londres, Robert Swan enfrenta a promessa que fez há décadas ao famoso pesquisador marinho francês Jacques Cousteau. Cousteau lhe pediu que, por ser o último grande entorno natural sobre a Terra, preservasse a Antártida de prováveis perfurações e atividades mineradoras que poderiam começaram em 2041, ano em que o Protocolo Antártico sobre Proteção do Meio Ambiente será submetido a avaliação e a uma possível emenda.

Se esse documento for alterado, é possível que uma das partes mais antigas do mundo mude para sempre. Swan pretende chamar a atenção para este assunto por meio do que chama sua “última grande exploração”. Agora planeja caminhar uma vez mais pelo Polo Sul sobrevivendo unicamente com energias renováveis. O explorador britânico não é um novato neste tipo de desafio. Nos anos 1980, foi a primeira pessoa a chegar caminhando ao Polo Sul, primeiro, e depois ao Polo Norte.

Dedicou sua vida a conscientizar sobre a mudança climática, e agora espera voltar a fazê-lo em sua última expedição. Sua primeira parada foi na conferência pelo Dia Norte-Americano da Energia Renovável, no Colorado, onde falou a líderes do setor, como Ted Turner e T. Boone Pickens. Depois seguiu rumo à Organização das Nações Unidas (ONU), onde hoje falará no TEDx UN Plaza.

IPS: O que, exatamente, Jacques Cousteau lhe pediu?

RORBERT SWAN: Me pediu para preservar a Antártida. Sua missão durante 50 anos foi preservar um lugar, e depois usar energia renovável para salvá-lo. E salvá-lo é pensar em formas para que não valha à pena empresas irem à Antártida para explorá-la.

IPS: Falemos sobre sua expedição.

RS: Já caminhei nos dois polos e vi todas estas coisas sobre mudança climática antes que o mundo começasse a despertar para ela. A última grande exploração é para sobreviver sobre a Terra. Temos que ver como usar a energia em nosso planeta. Se não o fizermos, não haverá mundo a explorar. Estamos preparando uma expedição em dois anos que é um desafio realmente grande, e sobreviveremos na Antártida com energias renováveis, algo jamais feito. Estamos dispostos a voltar e submeter as energias renováveis à última prova. Não sobreviveremos sobre a Terra se não começarmos a depender das energias limpas. As decisões de hoje estão ameaçando o futuro da vida sobre a Terra. Esta é uma história que se iniciou ao ir até os polos para experimentar pessoalmente os problemas, caminhando sobre camadas geladas que derretiam, sentir que nosso rosto queimava devido a um buraco na camada de ozônio há 25 anos. Qual foi nossa resposta para isso? Poderíamos ter nos unido ao Greenpeace e nos tornado ativistas; eles fazem um excelente trabalho. Mas, o que poderíamos fazer de diferente? Pudemos trabalhar com a indústria e as empresas. Mas decidimos inspirar as pessoas também, especialmente os jovens, com as redes sociais e nossa página no Facebook.

IPS: Como sua missão de conscientizar sobre as energias renováveis se relaciona com os países em desenvolvimento?

RS: Quando caminhei sobre os polos, há 22 anos, o assunto da energia não era uma prioridade para ninguém. As pessoas não estavam comprometidas com a energia. Estou trabalhando em projetos de energia renovável na Índia; se não conseguirmos que Índia e China usem energia renovável limpa para pelo menos um bilhão de habitantes (cada um) teremos um problema. Há 15 anos que trato com esses países, que são muito mais importantes do que convencer os Estados Unidos. Há mais gente em Mumbai do que na Califórnia, há 30 milhões de pessoas um uma única cidade indiana.

IPS: Quais países são os líderes na produção de tecnologia de energias limpas?

RS: Os Estados Unidos são o mais avançado nesta área, e também o que tem mais dinheiro. É brilhante em tecnologia. Se alguém tem uma boa ideia nesse país, há grandes possibilidades de concretizá-la. Steve Jobs começou em um garagem em Berkeley. Se alguém tem uma ideia fantástica nos Estados Unidos pode fazer com que funcione, e conseguir apoio financeiro para desenvolver a tecnologia. Isto se deve ao fato de as pessoas estarem dispostas a investir, os bancos e a infraestrutura dão o apoio para que isto ocorra. Alguém na China ou Índia pode ter uma grande ideia, mas depois não há apoio financeiro para fazer com que seja realidade. Os Estados Unidos podem financiá-la; é por isso que corre com vantagem, e estas grandes pessoas percebem que há dinheiro para fazer, e um grande mercado.

IPS: O que está faltando no debate internacional sobre energias renováveis?

RS: A ciência nos diz que deveríamos estar fazendo certas coisas, mas as pessoas não estão respondendo a ela porque não estão ouvindo. As pessoas estão paralisadas. Há muitas nações que estão se desenvolvendo e querem o que nós queremos e temos no Ocidente. A comunidade internacional tem que ser muito mais clara nas direções que toma. Os Estados Unidos podem ajudar a comunidade internacional apresentando uma liderança melhor. Uma nação como a Índia produz entre uma e 1,5 tonelada de carvão por pessoa, mas nos Estados Unidos a quantidade chega a 22 toneladas. Na Índia, as pessoas dizem: “Como podemos conseguir mudanças quando eles produzem 22 toneladas e nós uma? Por que não podemos fazer o que estamos fazendo?”. Os Estados Unidos têm que mostrar sua liderança, que estão conseguindo mudanças. De outro modo, o resto do mundo não levará esse país a sério. E a Europa também tem de mostrar liderança. Envolverde/IPS

Fellini

"A Doce Vida", de Federico Fellini: a liquidez do amor
publicado em cinema por vinicius siqueira

Décadas à frente do seu tempo, Fellini nos presenteou com uma obra premonitória: "A Doce Vida" trata da liquidez das relações e da mercantilização de toda a vida privada. É neste ponto em que as celebridades começam a ser tornar mercadorias que a notícia vale mais que o fato.


Gerado em 1960, "A Doce Vida" de Federico Fellini é considerado como um marco na carreira do diretor: se diz que marca a ruptura com o neo-realismo que o caracterizava antes e que assinala a introdução do simbolismo em suas obras. Eu diria mais: é uma obra premonitória.

Não usei o verbo 'gerado' à toa: não consigo dizer que o filme foi simplesmente feito. O fato de ser uma premonição de uma mudança estrutural na sociedade faz dele um produto cultural precocemente criado. É uma obra que nasceu com poucos meses de gestação e talvez aí seja possível entender sua lógica estranha e sua expressão precoce do tempo que viria para fundamentar uma sociedade pautada no consumo, no espetáculo e na insegurança.


Uma colcha de retalhos

Por não utilizar uma narrativa linear, Fellini faz do filme um monstro de aparência delicadamente horrível. É aí que se vê a repetição, em cada segmento do filme, de uma estrutura de insegurança, incerteza, hedonismo e consumo exacerbado.

Marcello é um jornalista da imprensa sensacionalista. Ele é responsável por obter furos de reportagem sobre a vida de famosos, ricos e aristocratas decadentes. Apesar de comprometido, Marcello tem inúmeros casos extraconjugais, ainda que sinta certa compaixão para com sua namorada/esposa: afinal, suas tentativas de suicídio são por culpa do explícito descaso que ele tem para com ela. Emma (a parceira), tem plena certeza de que as noitadas de Marcello são regadas por paixões pontuais e sabe que ele não liga para a fidelidade ou para o relacionamento de ambos.

Os casos que ele cobre vão desde a chegada de Sylvia, uma grande atriz norte-americana que, ingenuamente, vive num mundo cor-de-rosa cheio de felicidade; a uma suposta aparição da Virgem Maria no subúrbio de Roma – com uma cobertura midiática incrível que inclui a manipulação das ações que deveriam ser espontâneas dos familiares das crianças que viram a Virgem. Tudo calculado e nada livre, da maneira como a mídia é, mas que se esforça de um jeito sobrenatural para não parecer.


Amor líquido

O ponto que considero interessante no filme é a liquidez das relações:

A insegurança de se amar alguém, representada na declaração que Madalena, sua primeira amante durante o filme, faz para Marcello minutos antes de cair nos braços de outro homem qualquer (Madalena diz que o ama, mas que sabe não ser uma parceira ideal, que sabe que não é fiel) – declaração essa que, além de expressar a insegurança de uma relação, também deixa claro o hedonismo daquela sociedade: a declaração é, ao mesmo tempo, um desabafo.

O evitar de uma relação fixa, represento na bela briga entre Marcello e Emma quando, abruptamente, ele rejeita todas as formas fixas, rígidas, que Emma tinha de o amar. Mas, mesmo assim, a leva para casa e faz as pazes, não perdendo seu objeto de desejo garantido.



O hedonismo de Sylvia, que é muito mais claro que o hedonismo do bacanal, no fim do filme, ou que o hedonismo de Madalena, durante a festa aristocrata. Sylvia é a simbolização dos EUA entrando na cultura italiana. Não são só os carros em alta velocidade, mas também a felicidade instantânea sem sentido. A alegria boba, ingênua, gozadora, que não lida com a parte negra da vida, permeia todo o filme.

A decadência dos centros de autoridade moral, representados pelo falso milagre da família pobre de Roma e pelo momento em que os helicópteros param no ar com a estátua do Cristo, para que os jornalistas peguem o telefone das lindas moças na piscina.

O espetáculo, no sentido debordiano da palavra: a vitória da aparência, da imagem, do imediato, sobre a essência, sobre o processo como um todo – a mercantilização de todas as esferas da vida, representada pelos paparazzi! No filme, são quase um grupo de corvos, acompanhando Marcello e perseguindo todas as celebridades e todos os momentos de que se pode tirar algumas boas fotos.

A falta de significado na vida

Fellini antecipa um mundo de sensacionalismo e de mercantilização: um mundo onde a imprensa se torna mais um nó dentro da rede do mercado, onde seu compromisso com a realidade é um compromisso mediado pela esfera econômica, onde é possível, até mesmo viável, ter vários paparazzi nas ruas e jornalistas sensacionalistas esperando qualquer furo das mais recentes celebridades.


De maneira mais geral, é nesta obra que observamos a ascensão da incerteza e insegurança dos laços humanos, combinada com a mercantilização – a incerteza e a insegurança são produtos de uma era sem autoridades morais, onde tudo se passa como se fosse o próprio indivíduo o dono de sua vida e de suas decisões, onde tudo é avaliado por categorias de consumo.

O monstro no fim do filme, a criatura marinha horrenda e a impossibilidade de se comunicar com Paola, a menina pura do hotel, terminam simbolicamente e de maneira mais complexa aquilo que a cena do pai de Marcello, arrasado após não conseguir ir para a cama com a dançarina de cabaré, de maneira simples, quis dizer: vive a vida o mais rápido possível, o mais intenso possível, porque, depois, nada mais vai poder ser feito e nada mais vai fazer sentido.

Frase essa, óbvio, acalantadora de ouvidos jovens e seduzidos por um mundo de velocidade e fantasia, mas aterradora para ouvidos treinados: viver tudo e rápido é saber que a vida tem um limite de tempo e que esse limite de tempo da própria vida é menor que o limite de tempo da existência. É viver por um tempo para, depois deste tempinho, carregar a carcaça para lá e para cá.

O filme mantém claras em nossa mente as consequências da mercantilização da vida: quando o mundo é dos jovens e velozes, os velhos e lentos são excluídos sistematicamente. Perdem suas vidas, mesmo ainda existindo. Veja o trailer e corra atrás do filme!


vinicius siqueira tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é? Saiba como fazer parte da obvious.

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2013/08/a_doce_vida_de_federico_fellini_a_liquidez_do_amor.html#ixzz2fLYsQCtD

Obama

E Obama fala, fala, fala, fala...
 David Bromwich, London Review of Books, vol. 35,

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Obama e seus "sparrings"... ou cambonos
Os grupos antigoverno na Síria foram induzidos a uma intoxicante visão de triunfo, ao ouvir o que o presidente Obama disse em agosto de 2011, que foi traduzido, acertadamente, na manchete “Assad tem de sair”. Antes, Obama já emitira mensagens assemelhadas: “Mubarak tem de sair” e “Gaddafi tem de sair”. Obama pode talvez se ter metido na cabeça a ideia de que desempenhava papel benigno na Primavera Árabe – mostrando-se “do lado certo da história” (como ele gosta de dizer). “Assad tem de sair” soou também como se o presidente tivesse incorporado o espírito de George W. Bush; mas talvez não.

Obama tem uma queda pelo pouco caso, ou por tolices ditas como se fossem frases solenes para a história, com as quais bem faria se começasse a se preocupar. Em fevereiro de 2010, no auge da pressão para que seu governo agisse contra a banqueirada responsável pelo colapso financeiro de 2008, Obama respondeu uma pergunta sobre os capi Lloyd Blankfein (do Banco Goldman Sachs) e Jamie Dimon (de J.P. Morgan Chase):

Conheço esses dois caras: são homens de negócios muito bem informados.

Era Obama tentando provar a si mesmo que estava “por dentro”, confortável naquele ambiente, suficientemente próximo de Wall Street, para impressionar um dos lados; mas suficientemente distanciado, para merecer a confiança dos eleitores. Não funcionou. O comentário valeu-lhe um grau a menos de confiança dos eleitores e livrou os culpados de boa dose de um saudável medo.

Vladimir Putin
Este verão, depois de encontro insatisfatório com Vladimir Putin, Obama disse:

Sei que a imprensa gosta de focar a linguagem corporal, e ele lá ficou, com cara de aluno entediado no fundo da sala de aula.

É frase que até se pode arquivar para as Memórias, supondo que alguém a ache esperta e digna de nota – mas imprópria, vinda de um estadista que descreva outro líder mundial.

Já transcorridos 56 meses de governo Obama, não cabem dúvidas de que Barack Obama gosta de falar. Pensa que os americanos e outros anseiam por ouvir o que ele tenha para dizer, e sobre vários assuntos; conforme essa sua percepção, ele disse, em agosto de 2012, sobre a guerra civil na Síria:

Uma linha vermelha para nós é se começarmos a ver quantidades de armas químicas movidas de cá para lá ou sendo usadas. Isso mudaria meu cálculo.

Em março, a versão era outra, para a mesma declaração: o uso de armas químicas por Assad “muda o jogo”. Dois comentários nada diplomáticos. Quem estivesse interessado em empurrar os EUA para mais guerras não diria melhor, nem mais claramente, dos próprios interesses.

Quando surgiram algumas evidências de que se usaram armas químicas na Síria, esse ano, primeiro em março, perto de Aleppo, depois em agosto, perto de Damasco, as forças que pressionam a favor do envolvimento dos EUA exigiram, imediatamente, mudança de política.

Quem são essas forças? Uma das maiores e das quais menos se fala nos EUA sempre foi a Arábia Saudita. Se é preciso fornecer armas e dinheiro a jihadistas para enfraquecer a Síria e, por essa via, enfraquecer também o Irã, os sauditas sempre se mostram dispostos a fazer tudo isso. Turquia e Qatar também apoiam os jihadistas, contando com auferir vantagem política; e a Israel interessa prolongar a guerra, mas sem deixar que a vitória penda para os jihadistas. Assim Israel brilha com renovado fulgor como único parceiro com que os EUA contam, numa região que vai sendo cada vez mais devastada.

Matéria publicada pelo New York Times dia 5/9 noticiava manifestação de um ex-diplomata israelense, sobre os jihadistas e o exército sírio:

Que sangrem os dois, hemorragia até a morte: por aqui, esse é o nosso pensamento estratégico. Enquanto continuarem assim, não haverá real ameaça síria.

Depois que emergiram notícias do uso de armas de gás em março, Obama concordou, pela primeira vez em público, com mandar armas norte-americanas para apoiar grupos “do bem” dentro da oposição na Síria. Depois do incidente de agosto, no qual se registraram mais mortes, Obama anunciou sua conclusão de que Assad ordenara os ataques e que mísseis norte-americanos não tardariam a “punir” a infração atacando alvos significativos do Estado. Ao mesmo tempo, Obama insistia que não queria alterar o rumo da guerra, com a intromissão da força bélica dos EUA. Seu plano não iria além de um bem merecido castigo. A formulação traiu a contínua relutância; também mostrava que Obama pode ser levado a agir contra suas inclinações e, mesmo assim, consegue acomodar a coisa aos seus próprios padrões morais.

Não há dúvidas de que houve um ataque. Ninguém sabe ainda, com razoável certeza, quem o ordenou. Assad poderia ter ordenado, mas, dado que estava em vantagem na guerra e o movimento seria suicídio, não se entende como Obama concluiu o que concluiu. Diz-se que os rebeldes não teriam competência técnica para usar o gás, mas há notícias de que estavam de posse de armas químicas; a ideia de uma operação forjada, de provocação, e bem-sucedida, exigiria alto grau de perversão e talento dissimulatório que também são difíceis de aceitar.

John Kerry
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, obscureceu a discussão no final de agosto, quando, primeiro, pediu inspeção do local por inspetores da ONU; e logo depois os alertou para que saíssem de lá, porque os EUA bombardeariam tudo imediatamente. A coisa trouxe de volta ecos de Bush no Iraque em 2003, e Kerry tratou de cancelar a própria ordem; mas, surpreendentemente, declarou que nada do que os inspetores da ONU descobrissem faria, para ele, qualquer diferença.

As quatro páginas de um resumo do “relatório de inteligência”, não sigiloso, que Kerry distribuiu para divulgação pública – e, segundo avaliação do congressista Alan Grayson, o relatório completo, 12 páginas, sigiloso, nada dizia de diferente disso – falam do ponto de vista de “Nós [o governo dos EUA]”. A razão desse uso pouco usual das fórmulas gramaticais é clara: o tal documento não foi produzido pela inteligência dos EUA.

Gareth Porter
Gareth Porter, jornalista de Inter Press Service, examinou as pontas soltas, os “informes” vagos e genéricos, as omissões, as distorções gramaticais reproduzidas na fala de Kerry e concluiu que a ausência de assinatura de James Clapper naquele “relatório” é detalhe muito significativo.Clapper evidentemente se recusou a assinar, porque os dados haviam sido apenas alinhavados uns nos outros, sem qualquer investigação ou trabalho de inteligência (como os dados que Colin Powell apresentou na ONU, em fevereiro de 2003). Kerry falou de precisas 1.429 mortes no ataque de agosto; mas não há dado algum que confirme esse número, que varia muito nos relatos de primeira mão: a inteligência francesa estimou 281 mortos; os Médicos Sem Fronteiras, 355.

Em menos de uma semana o “relatório” de Kerry foi desqualificado e desacreditado, mas nem a imprensa-empresa, nem o establishment político foram informados disso.

Apoiado só em inferências forçadas e pressupostos, dos quais a melhor “pista” era uma comunicação interceptada – gravação de uma fala de um muito perturbado suposto comandante de forças sírias, entregue aos EUA pela inteligência israelense – Obama declarou sua intenção de ordenar um ataque. Em seguida, pediu autorização ao Congresso, para usar força militar e queria poderes para agir como entendesse necessário, para “responder a”, “deter” e “degradar” as capacidades militares e defensivas do governo sírio. Todas essas são palavras sem significado preciso, e foram escolhidas por essa razão. Em grau muito curioso, o pedido de Obama ao Congresso em setembro de 2013 é parecido com o pedido de Bush, para o mesmo fim, em outubro de 2002.

A conversa sobre “punir” Assad é toda ela marcada por uma posição de disciplina parental; não traz qualquer traço semântico da linguagem especializada do Direito Internacional. Não aconteceu por acaso.

País que ataque estado soberano, sem agressão prévia, viola leis do Direito Internacional. Quanto a “punições”, até pode acontecer de um governo punir legalmente os próprios cidadãos, mas não é relação possível entre dois países. Um exemplo simples: um pai pode dizer ao filho “Vá para o seu quarto”. Mas ninguém pode dizer a um vizinho indesejável “Você tem de sair”. Obama confunde-se e atrapalha-se, de modo que parece bem genuíno, sempre que se trataria de não ultrapassar a importantes linhas vermelhas dos discursos e das palavras. Anda de um lado para o outro, com excessivo à vontade.

No início da crise, tentou armar um estratagema retórico em torno da lei: os EUA e seus aliados, ao punir um ataque a gás contra sírios, que sem dúvida possível fora ordenado pelo presidente da Síria, estaria “fazendo valer normas internacionais”.“Normas internacionais” é expressão que, ultimamente, se ouve por toda parte. Um mundo sem normas (parece ser a implicação inevitável) é mundo em caos. Uma vez que a Rússia não levantaria o veto na ONU e confiado no que lhe diziam franceses e britânicos e o seu próprio governo... quem faria valer as normas internacionais? Quem, se não os EUA?

John McCain (E) e Lindsay Graham (D)
Muitas forças dentro da política norte-americana operaram para pressionar Obama em direção da guerra. Uma dupla de senadores Republicanos, Lindsey Graham e John McCain, ganharam extraordinário destaque nos veículos da imprensa-empresa, como especialistas em política externa. Comandaram a ala militarizada do Partido Republicano, apesar até da defecção de renegados do Tea Party e libertaristas free lance. E muitos Democratas guardaram para si as próprias dúvidas, para não parecer que se opunham ao presidente. Só quando a Câmara dos Comuns britânica votou contra, afinal a política de guerra dos EUA balançou.

O presidente e equipe foram profundamente perturbados pelo resultado daquela votação. O povo e seus representantes respiraram fundo; e a política de guerra dos EUA começou a ser mais amplamente questionada. Que sentido teria o tal ataque “limitado e adequado” [orig. “limited and tailored”] (frase típica de Obama) que simultaneamente aplicaria golpe inesquecível ao “ditador” alvo?

Susan Rice
Essa apresentação autocontraditória foi devida em parte a outra das forças que exigiam “castigo” americano ao sírio, a saber, os pregadores de guerra humanitária, e à líder deles, a assessora para segurança nacional de Obama, Susan Rice. A posição dela em pouco difere da antecessora, Condoleezza Rice (não são parentes), mas as duas desenvolveram suas credenciais internas por vias distintas: Condoleezza Rice, como acadêmica especializada em estratégia soviética; Susan Rice, num processo de ascensão dentro da elite política, com uma muito proclamada vocação de consciência para impedir “outra Rwanda”.

A campanha doméstica a favor de ataque norte-americano aos sírios foi marcada por uma notável novidade vinda dos agentes promotores de guerra humanitária: mensagens de Twitter, enviadas por Rice e pela embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, para promover também pelo lado de fora os objetivos pelos quais trabalhavam dentro do governo.

Todas elas são nomes que Obama nomeou recentemente e pelas quais expressou admiração. Mas, ao obedecer a elas e a um novo discípulo delas, recém conquistado, John Kerry, Obama passava a ignorar outra vozes dentro do governo, que teriam enorme peso. Todos os comandantes militares do Estado-Maior das Forças Armadas opunham-se à intervenção na Síria. O chefe dos chefes do Estado-Maior, general Martin Dempsey, já vinha dizendo há meses por que considerava perigoso o ataque. Que para nada serviria, exceto para prolongar a guerra civil; e que exporia bens norte-americanos na região à retaliação, no Afeganistão, na Líbia, por toda a parte. (Susan Rice comandou a campanha para que os EUA, com a OTAN, derrubassem o governo na Líbia. É possível que Obama ainda suponha que a guerra da Líbia tenha sido um sucesso, mas é ilusão só sua, da qual não partilham nem as forças armadas nem o serviço diplomático norte-americano).

Dempsey, Kerry e Hagel depõem no Senedo e na Câmara dos Representantes dos EUA
O depoimento de Dempsey ao Senado e à Câmara de Representantes foi feito com talento, mas, se visava a tranquilizar alguém, teve resultado oposto: a certa altura, o general recusou-se a prever efeitos futuros de algum ataque limitado; e o secretário de Defesa, Chuck Hagel, não conseguiu disfarçar as próprias emoções e respondeu a tudo como se não acreditasse em nenhuma palavra do que dizia. Juntos, esses dois faziam impressionante contraste com o secretário de Estado sentado ali ao lado. Kerry parecia tomado de renovada certeza, absoluta certeza, que ia aumentando a cada resposta, a cada pergunta que lhe era feita.

Rush Limbaugh
Verdade é que Kerry funcionava como o mais espetacular boneco de ventríloquo encarregado de vender uma política incoerente. “Não consigo parar de pensar em John Kerry, ontem, todo vaidoso” – disse o demagogo conservador e radialista Rush Limbaugh – “revelando que alguns países do Oriente Médio ofereceram-se para pagar pelo nosso ataque à Síria”. Quero dizer... Já não é ruim que chegue sermos chamados de policiais do mundo? Quem quer ser um policial subornado?! O que haveria de bom nisso? Quem somos nós, agora? Viramos mendigo, pedinte?!”.

O provável maior problema de qualquer governo em total desalinho é que ele induz as pessoas a pensar duas vezes sobre tudo que o governo faça ou diga e sobre todas as suas políticas.

No final de agosto, com britânicos ou sem, os EUA estavam posicionados para ir à guerra. Mas a opinião pública já migrara para um ceticismo desconfortável – a proporção, que era de 3:1 a favor dos que não queriam a guerra, subiu, na segunda semana de setembro para mais de 2:1 contra. E foi no meio dessa deriva que o presidente resolveu enviar a questão ao Congresso e pedir que dividissem com ele a responsabilidade. Mas o Congresso, então, já estava refletindo a opinião pública. A consulta sugeriu que Obama queria mais tempo para pensar, e que não queria perder para a Grã-Bretanha, que seguira os procedimentos de um governo constitucional. Mas incongruente e muito estranhamente, Obama logo acrescentou que não seria pautado pela votação no Congresso. O que aí se vê é ambivalência pessoal privada, exposta para contemplação universal.

Mas naqueles primeiros dias de setembro já se respirava outro ar, o ar de uma democracia que olhava a própria cara. John McCain foi acusado de leviandade, numa reunião popular no Arizona, por uma mulher que tem um primo sírio. O senador Rand Paul, o branco libertarista do Kentucky, e o Deputado Elijah Cummings, o negro liberal de Baltimore, relataram, ambos, que seus respectivos eleitores opunham-se a qualquer ataque, na proporção de quase 100:1. O presidente e sua secretaria de Estado, e com esses também uma vasta porção da elite política, haviam aprovado a ação militar para derrubar um quarto governo no Oriente Médio, depois de Afeganistão, Iraque e Líbia. Mas o povo dos EUA, dessa vez, disse “não”.

Mesmo assim, na primeira semana de setembro, Obama e Kerry ainda defendiam tanto a ambição delirante quanto a versão minimalista de seu ataque tão premeditado. Ataque decisivo e para incapacitar, que duraria poucos dias: essa parece ter sido a versão que o presidente apresentou a Graham e McCain. Mas o ataque que Kerry antevia, como disse à imprensa britânica dia 9/9, seria:

(...) muito limitado, muito focado, esforço de curto prazo... Estamos falando é disso – esforço incrivelmente pequeno e limitado.

E a confusão não fica aí. Recentemente em sua fala à nação, dia 10/9, Obama contradisse Kerry e afirmou que o ataque não seria um beliscão, acrescentando em tom grave:

Os militares dos EUA não dão beliscões.

Dia 9/9, Kerry deixou escapar um comentário, que seria carregado de consequências. O único meio pelo qual Assad conseguiria evitar ataque norte-americano seria ele entregar suas armas químicas a supervisão internacional e eventual destruição. “Claro” – Kerry acrescentou – “que não acontecerá”. Putin ouviu e entrou em cena. Mas, sim, disse Putin, é claro que acontecerá, porque a Síria entregaria suas armas químicas à inspeção internacional e até ao confisco, nos termos de um acordo que a Rússia intermediaria; em segundos, seu ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, apareceu com um plano diplomático no qual já vinha trabalhando há meses.

A Casa Branca e o Departamento de Estado fizeram de tudo para ficar com os créditos por esse desenvolvimento, mas é quase impossível acreditar que tenha sido resultado de plano conjunto, do qual Kerry tivesse participado. Implicaria que o presidente ter-se-ia posto, ele próprio, numa situação que causaria embaraços ao governo, que o humilharia pessoalmente e que poria o mundo à beira de uma guerra, “porque” sabia da surpresa que surgiria no momento certo.

A boia não requisitada que Putin empurrou para Obama levou o presidente a retirar a consulta que encaminhara ao Congresso – mas, isso, só depois de ter absoluta certeza de que a votação aconteceria dia 11/9. Estava a caminho de ser derrotado na Câmara de Representantes e, possivelmente, até no Senado.

Dia 10/9, o presidente falou à nação. Precisou de mais tempo para justificar o ataque que estava devolvendo à prateleira, do que para explicar a nova rota na qual já estava comprometido, mas foi discurso “de abafa” também em outros sentidos: às vezes pedia, às vezes denunciava; dava lições de que o amor à paz tem às vezes de nos envolver em guerras, reiterando o imperativo de construir os EUA em casa, mas tomando o atento cuidado de falar do holocausto de judeus. E fechou com um apelo convencional ao onanismo nacional norte-americano:

(...) estamos sós no mundo, disse o presidente. Somos a nação “excepcional”. Por quase sete décadas os EUA têm sido a âncora da segurança global.

Dia seguinte, o New York Times publicou coluna editorial assinada por Putin, que expressou sua esperança de que os norte-americanos escolheriam evitar guerra mais ampla. Falou com consideração, de Obama.

Examinei atentamente a fala do presidente à nação, na 3ª-feira. E tenho de discordar da defesa do excepcionalismo norte-americano. O presidente disse que a política dos EUA é o que “faz diferentes os EUA, o que nos faz excepcionais”. É extremamente perigoso estimular as pessoas a que se vejam, elas mesmas, como diferentes, seja qual for a motivação.

Putin cumprimenta Obama durante o G20 último
Verdade seca, de fonte questionável, mas impossível de negar. Nação que se suponha uma exceção aos padrões observados pelas demais nações é tão boa bisca quanto alguém que se veja, a si mesmo, como exceção.

É pouco provável que Obama mude outra vez, por hora. Mas deixar-se na posição passiva, de quem só ouve o que os russos digam, que responde às vezes sim, às vezes não, às vezes “Vamos analisar”, exporá todo seu governo à acusação de estar “liderando pela retaguarda” demais (foi Obama quem inventou essa, ao jactar-se do que fazia na Líbia). A diplomacia é coisa relativamente nova para Obama. Mas, dessa vez, não teve escolha.

Nem Obama pode entregar essa carpintaria delicada às que mais alto gritavam a favor da guerra.

Obama terá de trabalhar duro para resistir à pressão para bombardear o Irã que nunca para de vir de Israel e do lobby israelense nos EUA. Delegar grandes responsabilidades de governo pode ser compatível com um sinal de humildade – e até funcionou assim, para Reagan – mas há cenários nos quais essa atitude aproxima-se perigosamente da temeridade ou da irresponsabilidade.

Em dezembro de 2011 pediram a Obama que ele confessasse um defeito pessoal; respondeu que o defeito que criticaria em si próprio era a preguiça. Mais uma vez (como o que disse sobre Putin e os banqueiros), melhor que não tivesse dito. Mas, seja como for, aí está a chance para se autorreformar: um tempo para comprometer-se pessoal e profundamente na construção de suas políticas, menos discursos palavrosos, menos comentários descuidados nas entrevistas; ocasião para trabalhar ativamente com novos parceiros, além de França, Grã-Bretanha e Israel.

Se quer igualar-se a Putin nas artes da diplomacia e superá-lo no difícil exercício da autocontenção, Obama tem de aproveitar esse momento, também, para reconsiderar o extraordinário aparelho de sigilo em que seu governo está confinado, para tudo que tenha a ver com a segurança e com suas políticas externas.



[*] David Bromwich ensina literatura em Yale e escreve sobre política e cultura para vários veículos como: The New Republic, The Nation, The New York Review of Books, London Review of Books e outros jornais e revistas. É editor da obra de Edmund Burke On Empire, Liberty, and Reform e co-editor da revista On Liberty da Yale University Press.

 (Redecastor)

Obsolescência Planejada

Obsolescência planejada: arma estratégica do capitalismo

Para que lucros floresçam, produtos precisam quebrar mais rápido, tornar-se ultrapassados ou indesejados. Preço é eterna angústia dos consumidores e devastação da natureza

Por Valquíria Padilha, Renata Cristina A. Bonifácio, no Le Monde Diplomatique

“É comum um telefone celular ir ao lixo com menos de oito meses de uso ou uma impressora nova durar apenas um ano. Em 2005, mais de 100 milhões de telefones celulares foram descartados nos Estados Unidos. Uma CPU de computador, que nos anos 1990 durava até sete anos, hoje dura dois anos. Telefones celulares, computadores, aparelhos de televisão, câmeras fotográficas caem em desuso e são descartados com uma velocidade assustadora. Bem-vindo ao mundo da obsolescência planejada!

Na sociedade de consumo, as estratégias publicitárias e a obsolescência planejada mantêm os consumidores presos em uma espécie de armadilha silenciosa, num modelo de crescimento econômico pautado na aceleração do ciclo de acumulação do capital (produção-consumo-mais produção). Mészáros (1989, p.88) diz que vivemos na sociedade descartável que se baseia na “taxa de uso decrescente dos bens e serviços produzidos”, ou seja, o capitalismo não quer a produção de bens duráveis e reutilizáveis. A publicidade é o instrumento central na sociedade de consumo e um grande motivador de nossas escolhas, pois é por meio dela que geralmente nos são apresentados os produtos de que passamos a sentir necessidade. A função da publicidade é persuadir visando a um consumo dirigido. Para aquecer as vendas, trabalha arduamente para convencer o consumidor da necessidade de produtos supérfluos. É o que Bauman (2008) chama de “economia do engano”. Para Latouche (2009, p.18), “a publicidade nos faz desejar o que não temos e desprezar aquilo que já desfrutamos. Ela cria e recria a insatisfação e a tensão do desejo frustrado”.

A obsolescência planejada

Para mover esta sociedade de consumo precisamos consumir o tempo todo e desejar novos produtos para substituir os que já temos – seja por falha, por acharmos que surgiu outro exemplar mais desenvolvido tecnologicamente ou simplesmente porque saíram de moda. Serge Latouche, no documentário A história secreta da obsolescência planejada,1diz que nossa necessidade de consumir é alimentada a todo momento por um trio infalível: publicidade, crédito e obsolescência.

Planejar quando um produto vai falhar ou se tornar velho, programando seu fim antes mesmo da ação da natureza e do tempo de uso é a obsolescência planejada. Trata-se da estratégia de estabelecer uma data de morte de um produto, seja por meio de mau funcionamento ou envelhecimento perante as tecnologias mais recentes. Essa estratégia foi discutida como solução para a crise de 1929. O conceito teve início por volta de 1920, quando fabricantes começaram a reduzir de propósito a vida de seus produtos para aumentar venda e lucro. A primeira vítima foi a lâmpada elétrica, com a criação do primeiro cartel mundial (Phoebus) para controlar a produção. Seus membros perceberam que lâmpadas que duravam muito não eram vantajosas. A primeira lâmpada inventada tinha durabilidade de 1.500 horas. Em 1924, as lâmpadas duravam 2.500 horas. Em 1940, o cartel atingiu seu objetivo: a vida-padrão das lâmpadas era de 1.000 horas. Para que esse objetivo fosse atingido, foi preciso fabricar uma lâmpada mais frágil.

Em 1928, o lema era: “Aquilo que não se desgasta não é bom para os negócios”. Como solução para a crise, Bernard London propôs, num panfleto de 1932, que fosse obrigatória a obsolescência planejada, aparecendo assim pela primeira vez o termo por escrito. London pregava que os produtos deveriam ter uma data para expirar, acreditando que, com a obsolescência planejada, as fábricas continuariam produzindo, as pessoas consumindo e, portanto, haveria trabalho para todos, que trabalhando poderiam consumir e assim fazer o ciclo de acumulação de capital se manter. Nos anos 1930, a durabilidade começou a ser propagada como antiquada e não correspondente às necessidades da época. Nos anos 1950, a obsolescência planejada ressurgiu com o enfoque de criar um consumidor insatisfeito, fazendo assim que ele sempre desejasse algo novo. Ainda no pós-guerra assentaram-se as bases da sociedade de consumo atual, por meio do estilo de vida norte-americano (American way of life), baseado na liberdade, na felicidade e na ideia de abundância em substituição à ideia do suficiente.

Os tipos de obsolescência

Podemos considerar três tipos de obsolescência: obsolescência de função, de qualidade e de desejabilidade. “Pode haver obsolescência de função. Nessa situação, um produto existente torna-se antiquado quando é introduzido um produto que executa melhor a função. Obsolescência de qualidade. Nesse caso, quando planejado, um produto quebra-se ou se gasta em determinado tempo, geralmente não muito longo. Obsolescência de desejabilidade. Nessa situação, um produto que ainda está sólido, em termos de qualidade ou performance, torna-se gasto em nossa mente porque um aprimoramento de estilo ou outra modificação faz que fique menos desejável” (Packard, 1965, p.51).

Slade (2006) chama a “obsolescência de função” de “obsolescência tecnológica”, que é o tipo de obsolescência mais antiga e permanente desde a Revolução Industrial até hoje, em razão da inovação tecnológica. Assim, a obsolescência tecnológica, ou de função, sempre esteve atrelada a determinada concepção de progresso visto como sinônimo de avanços tecnológicos infinitos. Os telefones celulares e os notebooks são o melhor exemplo disso. A “obsolescência de qualidade” é quando a empresa vende um produto com probabilidade de vida bem mais curta, sabendo que poderia estar oferecendo ao consumidor um produto com vida útil mais longa. Na década de 1930, faziam-se constantes apelos aos consumidores para trocarem suas mercadorias por novas em nome de se tornarem bons e verdadeiros cidadãos norte-americanos. O último e mais complexo tipo de obsolescência é o da desejabilidade, ou “obsolescência psicológica”, que é quando se adotam mecanismos para mudar o estilo dos produtos como maneira de manipular os consumidores para irem repetidamente às compras. Trata-se, na verdade, de gastar o produto na mente das pessoas. Nesse sentido, os consumidores são levados a associar o novo com o melhor e o velho com o pior. O estilo e a aparência das coisas tornam-se importantes como iscas ao consumidor, que passa a desejar o novo. É o design que dá a ilusão de mudança por meio da criação de um estilo. Essa obsolescência pode ser também conhecida como “obsolescência percebida”, que faz o consumidor se sentir desconfortável ao utilizar um produto que se tornou ultrapassado por causa do novo estilo dos novos modelos.

A lógica da sociedade capitalista precisa criar ou renovar estratégias que favoreçam a acumulação do capital (por meio não só da expropriação da mais-valia na produção, mas também pelo lucro obtido na venda dos produtos). Mészáros (1989) nos mostra que a taxa de uso decrescente no capitalismo é um mecanismo inevitável da produção destrutiva do capital. O autor considera esse fenômeno intrínseco ao modo de produção capitalista, o qual precisa estimular a sociedade descartável para perdurar enquanto sistema econômico hegemônico. Ele diz: “É, pois, extremamente problemático o fato de que [...] a ‘sociedade descartável’ encontre o equilíbrio entre produção e consumo necessário para a sua contínua reprodução, somente se ela puder artificialmente consumirem grande velocidade (isto é, descartar prematuramente) grandes quantidades de mercadorias, que anteriormente pertenciam à categoria de bens relativamente duráveis. Desse modo, ela se mantém como sistema produtivo manipulando até mesmo a aquisição dos chamados ‘bens de consumo duráveis’, de tal sorte que estes necessariamente tenham que ser lançados ao lixo (ou enviados a gigantescos ‘cemitérios de automóveis’ como ferro-velho etc.) muito antes de esgotada sua vida útil” (Mészáros, 1989, p.16).

A sociedade do consumo visa atender às necessidades de acumulação do capital mais do que às necessidades básicas de seus membros. Se a satisfação de todos fosse realmente a finalidade do sistema produtivo, os bens seriam reutilizáveis. Mas, como o capitalismo “tende a impor à humanidade o mais perverso tipo de existência imediata” (Mészáros, 1989, p.20), toda a sociedade fica submetida à lógica de acumulação do capital segundo a qual a não aceleração do ciclo produção-consumo se torna um obstáculo. Assim, a obsolescência planejada passa a ser uma estratégia fundamental para satisfazer as exigências expansionistas do modo de produção capitalista. “[...] quanto menos uma dada mercadoria é realmente usada e reusada (em vez de rapidamente consumida, o que é perfeitamente aceitável para o sistema), [...] melhor é do ponto de vista do capital: com isso, tal subutilização produz a vendabilidade de outra peça de mercadoria” (Mészáros, 1989, p.24).

Tudo acaba virando lixo

A obsolescência planejada é uma tecnologia a serviço do capital. Para aumentar a acumulação de riquezas privadas, o capital devasta, destrói, esgota a natureza. O aumento da riqueza do capital é proporcional ao aumento da destruição da natureza. Na sociedade da obsolescência induzida, tudo acaba em lixo. Quanto mais rápida e passageira for a vida dos produtos, maior será o descarte. A publicidade é o motor que faz toda essa dinâmica funcionar. Esse modelo de sociedade baseada na estratégia da obsolescência planejada está sendo determinante no esgotamento dos recursos naturais (que ocorre na etapa da produção) e no excesso de resíduos (que ocorre na etapa do consumo e do descarte). Magera (2012) salienta que a humanidade, que existe no planeta há milhares de anos, conseguiu alcançar a maioria de todos os avanços tecnológicos e informacionais apenas nos últimos duzentos anos. Mas essa sociedade do consumo, que, em nome do progresso, aumenta o volume e a velocidade das coisas produzidas industrialmente, eleva também o volume de lixo. Ao mesmo tempo, os consumidores não são estimulados a se conscientizar sobre a geração de resíduos. O lixo é algo do qual as pessoas querem se desfazer o mais rápido possível e, de preferência, que seja levado para bem longe.

Leonard (2011) apresenta inúmeros dados relacionados à extração de recursos naturais e à produção e geração de resíduos no final do ciclo. Alguns exemplos: para produzir uma tonelada de papel, são usadas 98 toneladas de vários outros materiais; 50 mil espécies de árvores são extintas todos os anos; os norte-americanos possuem cerca de 200 milhões de computadores, 200 milhões de televisores e 200 milhões de celulares; nos Estados Unidos são consumidos cerca de 100 bilhões de latinhas de alumínio anualmente. A autora mostra que todo o nosso sistema produtivo-consumista, potencializado pelas estratégias de obsolescência, produz uma destruição assustadora dos recursos naturais ao mesmo tempo que aumenta consideravelmente a geração de lixo. Com a taxa decrescente do valor de uso dos produtos, tudo o que o sistema consegue é aumentar a acumulação do capital enquanto aumenta a destruição do planeta.

Produção de tecnologias verdes ou programas de reciclagem não resolvem essa gama de problemas. É urgente rever o modelo de crescimento econômico que se sustenta nos pilares da obsolescência planejada.

Decrescimento econômico

Podemos afirmar que a espinha dorsal desta sociedade de consumo atual é a aceleração do ciclo produção-consumo-mais produção-mais consumo, gerando descarte e resíduos. O consumo é visto como o motor responsável pelo crescimento econômico – entendido como algo sempre bom e necessário – com base em um paradigma produtivista-consumista. A publicidade continua uma aliada fundamental para manter acesa a chama do consumo e da taxa decrescente do valor de uso das mercadorias, fazendo dos consumidores vítimas de uma armadilha invisível.

Rever os princípios que norteiam esse modelo de crescimento econômico é necessário. Inspiramo-nos no movimento recente do decrescimento econômico, que tem o economista francês Serge Latouche como um dos principais expoentes. O PIB não pode mais continuar sendo visto como uma taxa que deve sempre crescer. Não é razoável pensar num crescimento infinito quando o planeta é finito. O movimento pelo decrescimento econômico parece-nos uma saída para muitos dos problemas que apontamos aqui. Não se trata de voltar ao tempo das cavernas, mas sim de parar imediatamente com esse modelo de crescimento, de progresso e de felicidade ancorado na sociedade de consumo. O crescimento pelo crescimento é irracional. Precisamos descolonizar nossos pensamentos construídos com base nessa irracionalidade para abrirmos a mente e sairmos do torpor que nos impede de agir. Latouche diz: “A palavra de ordem decrescimento tem como principal meta enfatizar fortemente o abandono do objetivo do crescimento ilimitado, objetivo cujo motor não é outro senão a busca do lucro por parte dos detentores do capital, com consequências desastrosas para o meio ambiente e, portanto, para a humanidade” (2009, p.4). A nova lógica que deverá ser construída é a de que podemos ser felizes trabalhando e consumindo menos. Nesse projeto, não faz sentido falar em desenvolvimento sustentável – mais um sloganda moda que os capitalistas inventaram. Falar em ecoeficiência é continuar na “diplomacia verbal”.

O assunto não se esgota aqui, obviamente, mas é fundamental desvelar o princípio da obsolescência planejada para que possamos renovar nossas utopias de um mundo onde a natureza seja preservada, onde haja mais presença e menos presente, mais laços humanos e menos bens de consumo.

*Valquíria Padilha Professora de Sociologia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP) e autora de Shopping center: a catedral das mercadorias(Boitempo, 2006).

**Renata Cristina A. Bonifácio Graduada em Administração de Empresas pela FEA-RP/USP.



1 Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=q97DdVViqLg>.

Referências bibliográficas
BAUMAN, Z. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
HAUG, W. F. Crítica da estética da mercadoria. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
LATOUCHE, S. Pequeno tratado do decrescimento sereno. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
LEONARD, A. A história das coisas. Da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
MAGERA, M. Os caminhos do lixo. Campinas (SP): Átomo, 2012.
MÉSZÁROS, I. Produção destrutiva e o estado capitalista. São Paulo: Ensaio, 1989.
PACKARD, V. Estratégia do desperdício. São Paulo: Ibrasa, 1965.
SLADE, G. Made to break: technology and obsolescence in America [Feito para quebrar: tecnologia e obsolescência nos Estados Unidos]. Harvard University Press, 2006
(Outras Palavras)

Política Exterior

Política
Celso Amorim: “Precisamos nos preparar para evitar uma guerra cibernética”
Ministro de Relações Exteriores, no governo Lula, e ministro da Defesa, no governo Dilma, Celso Amorim, em entrevista ao jornal Página/12, explica por que a América do Sul necessita de uma visão comum sobre a defesa baseada na cooperação e na preservação dos recursos naturais. E também o que fazer diante de uma guerra cibernética. "Estamos pensando em realizar um grande esforço na área da defesa cibernética", anuncia.

Martín Granovsky

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Buenos Aires - Aos 71 anos, o ministro de Defesa Celso Amorim registra um recorde em sua história. Em 2009, quando era chanceler de Lula, a revista norte-americana Foreign Policy o chamou de “o melhor ministro de Relações Exteriores do mundo”. De viagem pela Argentina, onde firmou um acordo com seu colega Agustín Rossi para ampliar o trabalho conjunto, dialogou com a Página/12 na residência do novo embaixador brasileiro Everton Vieira Vargas.

–Você é ministro de Defesa, foi chanceler do presidente Itamar Franco e nos dois mandatos de Lula. O Brasil tem uma doutrina de defesa. Que relação há entre essa doutrina e a da Unasul, expressa nos documentos do Conselho Sul-americano de Defesa? Quais as diferenças, as semelhanças e os pontos comuns?

– Unasul é uma dimensão importante de nossa política de defesa, o que não quer dizer que outros países não possam ter visões diferentes. Em nossa região – e quando falo de região me refiro a América do Sul – nós achamos que deve reger a cooperação. A cooperação é a melhor forma de dissuasão. Portanto, todos os trabalhos da Unasul sobre criação de confiança, de cooperação industrial, de exercícios comuns, têm para nós um grande valor.

Não quero interpretar os demais países, mas acho que, se a cooperação vale para o Brasil, também é valiosa para os outros países. Quando se discute temas globais no mundo, o fato de que nossa região seja pacífica é um valor a favor extraordinário. Quando se fala da competitividade e se fala da capacidade de atração de investimentos, se trata de uma vantagem formidável para a paz. E isso também nos dá grande autoridade para falar de outros problemas no mundo. O Conselho Sul-americano de Defesa da Unasul é uma dimensão importante. Mas além disso acho que temos em comum uma série de interesses.

Talvez o mais evidente de todos seja a defesa dos recursos naturais. Somos uma região muito rica em energia, em capacidade de produção de alimentos, em água doce, em biodiversidade... Também somos uma região muito diversificada, desde o trópico mais equatorial até a Tierra del Fuego.

Contamos com oceanos dos dois lados. Tudo isso nos constitui como uma região que deve ter uma visão comum de defesa.

– Uma defesa comum?

– Não é necessária. O necessário é a visão comum. É o trabalho que também queremos desenvolver no Conselho Sul-americano de Defesa. Por isso estimulamos a criação de uma escola sul-americana de defesa. Temos pontos comuns evidentes, como os que mencionei antes. Também queremos encarar o monitoramento de nossas áreas especiais. Para o Brasil, a Amazônia é uma zona óbvia para cuidar, mas ao mesmo tempo falo do mar territorial ou de regiões especiais, que são fatores que podem propiciar uma cooperação.

– Fala do Atlântico Sul e o litígio das Malvinas dentro do Atlântico Sul?

– Bom, tem a ver com o Atlântico Sul. Nossa posição sobre as Malvinas é muito conhecida e não tenho necessidade de repeti-la. Defendemos sempre os direitos argentinos e uma solução negociada. Mas o Atlântico Sul, além do problema muito importante das Malvinas, apresenta outros problemas muito importantes. Há estradas chave. Chave para a Argentina, claro, mas como ministro de Defesa do Brasil falo de que uma proporção enorme de nosso comércio exterior vai pelo Atlântico. E nossos provedores de petróleo, porque ainda não conseguimos o auto abastecimento e também há diferentes tipos de petróleo cru, são a Nigéria, a Angola, a Argélia... O transporte, em todos os casos, passa pelo Atlântico Sul.

Além disso, como você sabe, o Brasil tem uma relação muito próxima com a África. É uma relação histórica que cobra mais e mais importância, o que nos leva a ter uma maior presença cultural e econômica. Outra razão mais, então, para preocuparmo-nos com o Atlântico Sul. Agora, queremos garantir a segurança do Atlântico Sul justamente com os países do Atlântico Sul. Do ponto de vista geopolítico, é natural a cooperação dos países da costa ocidental da África e dos países da América do Sul. Todos conformam a zona de paz do Atlântico Sul. Por estes dias realizaremos, no Brasil, um seminário muito importante em Salvador, Bahia. A Argentina participará com um conferencista. Por isso queremos manter o Atlântico Sul como zona de paz, de cooperação, livre de armas de destruição massiva.

– Ministro, eu mencionei a palavra “defesa” e em sua resposta você incluiu a palavra “recursos”. De quem a América do Sul deve defender seus recursos? De riscos potenciais ou há uma identificação precisa?

–Não, não há uma identificação específica. Ao menos no caso do Brasil, não temos inimigos. Talvez seja assim por fortuna histórica, ou pela diplomacia do passado. Não sei... Temos relações muito boas com as diferentes potências. Mas é suficiente que alguém olhe a história, por um lado, ou por outro lado que olhe os estudos sobre a prospectiva dos recursos naturais no futuro, para pensar que há eventualidades que podem acontecer. Devemos estar preparados para refutar qualquer tentativa de alcançar um alvo, de qualquer lugar que venha. E nisso entra a necessidade de ter capacidade de dissuasão. Por isso disse que dentro da região, dentro da América do Sul e talvez isso valha para outros países como os da África, tem que considerar que em um mundo global e, ainda que não tenhamos nenhum inimigo declarado ou não declarado, devemos ter uma política de dissuasão.

– A dissuasão é para que sequer chegue a existir um inimigo?

– Exato. É uma forma muito inteligente de ver a questão. Quando alguém se prepara para se defender, desestimula ataques de outros países que possam, em alguma situação, achar que necessitam algo. Do etanol, que o Brasil produz, para dar um exemplo. De água doce, que há nos aquíferos. A dissuasão fará com que, antes de tentá-lo, alguém pense duas vezes.

– Quais são as principais linhas de desenvolvimento de armamentos que o governo de Dilma Rousseff se propõe desdobrar?

–Temos três áreas consideradas estratégicas. Uma é a nuclear, com o plano de desenvolver o submarino de propulsão nuclear. O Brasil tem a costa atlântica mais longa do mundo. Acho que mais longa ainda que a costa argentina. A descoberta e exploração do pré-sal, das jazidas petrolíferas a muita profundidade, valorizam ainda mais a costa. Uma vigilância eficaz só pode ser feita por um submarino que possa ficar muito tempo embaixo da água. Outro plano estratégico é o espacial. Inclui a capacidade de lançamento e também satélites. Está a cargo da Força Aérea. O terceiro aspecto estratégico, muito atual, é a defesa cibernética. Não o digo eu sozinho. Se você lê análises e comentários de gente das grandes potências – e não quero particularizar – verá sua tese. Nós não queremos guerra, claro, mas eles dizem que, se houvesse uma guerra, essa guerra do futuro seria cibernética. Inclusive para evitar uma guerra desse tipo há que estar preparado.

Estamos pensando em realizar um grande esforço na área da defesa cibernética. Já antes de 2010 haviam equipes trabalhando nisso, mas depois dessa data criamos um Centro de Defesa Cibernética com base no exército mas que serve também às outras forças. Já atuou em situações pontuais, não comparáveis ao ataque de uma potência estrangeira.

– Atuou em tarefas de prevenção?

–Sim, por exemplo durante a cúpula do Rio + 20, na Copa das confederações, na visita do papa Francisco... Deteve vários ataques cibernéticos. Obviamente são ataques de hackers, algo incomparável com o que pode acontecer em uma situação de conflito em grande escala.

– Esses ataques são comparáveis com a intercepção de comunicações e mensagens da presidenta e seus conselheiros?

Você pode fazer a comparação que desejar.

– A intercepção foi um ataque?

– Não o caracterizaria desse modo, o que não quer dizer que não tenha sido uma intrusão para colher dados. É como se você me perguntasse se a espionagem é o mesmo que a guerra. Nesses casos estamos, de certo modo, no limite. Um limite que não se pode passar. Mas quando se fala de defesa cibernética se pensa mais em um ataque do tipo do que pode realmente afetar todo um sistema. O sistema elétrico, o sistema de controle dos aeroportos... Várias coisas... Um ataque assim pode gerar o efeito de uma arma de destruição massiva.

– Como uma sabotagem de amplo alcance.

– Pode ser. Mas isso não diminui a importância da tentativa de colher informação, um tema que tem vários aspectos. Envolve a invasão de privacidade quando se trata de cidadãos. Ou o que tem a ver com recursos naturais e com a tecnologia para obtê-los. Tudo isso é preocupante. Não tenho o detalhe das explicações que meu colega recebeu do ministro de Relações Exteriores, ou seja que não posso comentar em detalhe.

– Ao comparar sua gestão com Lula e a gestão dos dois chanceleres de Dilma, há uma intensidade diferente na relação do Brasil com o resto da América do Sul e com a Argentina em particular?

–Deixo esse tipo de questões para os analistas. Eu tenho meu trabalho de ministro. Mas lhe digo que as prioridades continuam sendo as mesmas. Não tenho nenhuma razão para acreditar que a intensidade seja diferente. É a mesma. Há estilos que dependem das pessoas, mas os estilos não marcam diferenças de fundo.

– Deixando de lado, como forma de analisar as coisas, o sentimento de irmandade, a solidariedade ou os atos generosos, em que convém ao interesse nacional brasileiro uma aliança sólida com a Argentina e com o resto dos países da América do Sul?

– É muito difícil separar a conveniência dos sentimentos fraternos e da solidariedade. Inclusive é difícil separá-la da generosidade. Quando era chanceler, disse muitas vezes que devíamos ser generosos porque assim defenderíamos também nossos interesses a longo prazo. Temos interesse em manter boas relações com nossos vizinhos. E com a Argentina, país com o qual as relações são mais intensas, com mais razão. Houve uma pequena queda em 2012, mas entre 2000 e 2011 as exportações brasileiras à Argentina passaram de dois bi a mais de vinte bilhões de dólares. As importações da Argentina não cresceram tanto, mas também aumentaram muito. Pensemos que no intercâmbio é importante a presença de bens manufaturados. Também registramos um crescimento do comércio com outros países da região. Isso não tem a ver com o interesse nacional? Claro. Mas quando Raúl Alfonsín e José Sarney se aproximaram , o interesse econômico existia. Entretanto, ao mesmo tempo era um instrumento para a consolidação da paz, a eliminação das rivalidades, que talvez não fossem tão reais, mas imaginárias, ainda que o imaginário na política tem sua importância...

–E estavam as corridas atômicas paralelas.

– Fico muito orgulhoso pois, antes de ocupar a Chancelaria, pude ser o negociador principal para a contabilidade e o controle nuclear entre a Argentina e o Brasil.

– A Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares?

–A negociação e o acordo bilateral foi o que possibilitou a Abacc.

– Ministro, um dos desafios que o Brasil e a Argentina enfrentam, cada um a seu modo, é o perigo de reprimarização na relação com terceiros países. A China, por exemplo. Se a relação comercial se baseia em exportar mineral de ferro ou soja e se essa exportação gera divisas imprescindíveis para o Brasil e a Argentina, como se consegue a combinação justa de equilíbrio e contradição?

–Também exportamos aviões à China. E os aviões são de alta tecnologia. Sem falar da China em particular, em geral com o mundo que exportamos e que importamos é algo que deve preocupar-nos. Queremos uma inserção com muito valor agregado. Eu não diminuiria tanto o valor das exportações agrícolas. Hoje, dentro da agricultura, há muita tecnologia. Isso dá valor agregado, ainda que seja menos óbvio.

O Brasil acaba de superar pela primeira vez os Estados Unidos em soja. Só foi possível, não por subvenções ao produtor, como fazem os Estados Unidos, e sim por grandes investimentos em tecnologia. A soja deixou de ser possível só em climas temperados. Dito isso, acho que nossa cooperação seria muito importante. Por que, em lugar de discutir como compete uma geladeira feita no Brasil com outra feita na Argentina, não fazemos uma geladeira juntos? Mas volto ao meu tema, como ministro. Podemos fazer muitas coisas juntos em Defesa. Nós temos um conceito original de avião de transporte. Mas muitas partes importantes serão fabricadas na Argentina. O KC390, que pode substituir os Hércules, é um exemplo. Podemos vendê-lo.

Não quero entrar em terrenos sociais, onde me sento menos firme, mas penso que não apenas é questão de vender bens alimentícios ou minerais. Também se trata de saber utilizar os recursos que se obtém dessas exportações para investir em planos de alta tecnologia. Há toda uma complexidade por indagar.

De todos modos, não acho que nossa economia vá se reprimarizar, mas admito que é uma preocupação a considerar. Enquanto isso, temos muito que fazer juntos. O exemplo é o reator nuclear. Ao melhor, algum dia podemos vendê-lo, também. Vocês já venderam algo à Austrália, não? Os aviões do Brasil, talvez com alguma contribuição importante da Argentina, podem também ser vendidos. Continuamos aprendendo dos avanços que vocês alcançaram em radares. Aí vejo outro campo de cooperação. Trabalhemos em tudo isso. A defesa tem um alto poder de indução em investimentos de valor tecnológico. E nem falar de outras áreas que a Argentina levantou, com razão, na Unasul, como os medicamentos.

– Que relação tem a produção de medicamentos com a defesa?

– Os medicamentos são necessários para os soldados. Se trata de corporações onde vive muita gente junta e as doenças podem difundir-se.

– Qual é o maior fator de instabilidade concreta que vê hoje no mundo? Síria, Oriente Médio?

–Seria difícil olhar a Síria, e a Síria dentro do Oriente Médio, e não preocupar-se. Tampouco diria que a questão dos recursos está ausente do conflito, ainda que haja outras razões também: línguas, culturas... Mas também os recursos têm grande importância. Seria ingênuo supor o contrário. A intervenção no Iraque se deveu às armas químicas que – como ficou demonstrado depois – não existiam. Saddam Hussein era um ditador, mas não era o único ditador no mundo. Por que foi eleito Saddam Hussein? Porque além de ser um ditador tinha petróleo. No Brasil também nos causa preocupação a instabilidade em alguns países africanos. Acho que a África está avançando inclusive em termos de mudanças de governo e evolução democrática, ainda com todas as imperfeições que têm os processos políticos quando recém começam. Mas para nós, questões que inicialmente pareciam mais afastadas, mas que também tinham a ver com recursos, como a questão da Líbia, terminaram com uma desestabilização que afetou o Mali e depois o litoral ocidental da África, com o que voltamos à problemática do Atlântico Sul. Um Estado falido, para usar o vocabulário internacional, sempre é um fator de instabilidade. Mas hoje, naturalmente, o foco de instabilidade parece muito concentrado no Oriente Médio. De todos modos, quero referir-me a um fator de instabilidade que as vezes não se menciona.

– Qual é esse fator?

–O fato de que alguns países tenham a capacidade de destruir várias vezes o mundo com seus arsenais nucleares é um grande fator de instabilidade. Porque isso gera outras instabilidades. Não vejo justificativa para que nenhum país tenha armas químicas. A Argentina e o Brasil firmaram o acordo correspondente. Mas é um estímulo negativo que existam armamentos nucleares e que não se trabalhe de maneira firme para eliminar os arsenais nucleares. Disso não se fala. Como se dissessem: “Os arsenais estão em mãos de países sérios e podem utilizá-los. O problema são os países não-sérios”. Me parece que esse raciocínio é em si mesmo uma fonte de instabilidade de potencialidades gravíssimas.

–Existem menos armas nucleares mas têm maior poder de dano.

–Sim, porque houve um esforço de destruição. Não tantas menos, de qualquer maneira, porque muitas existem ainda que não estejam mais em estado de alerta. E também, efetivamente, existem menos armas nucleares mas seus proprietários continuam trabalhando na “eficácia”, e o digo entre aspas. Essa “eficácia” supõe uma maneira de proliferar. É a proliferação do poder destrutivo. E disso não se fala.

Tradução: Libório Júnior


(Carta Maior)