Billy Wilder: o mestre do cinema
Gian Danton
Billy Wilder é um dos mais importantes diretores do cinema mundial. Judeu austríaco, mudou-se para a América fugindo do nazismo e fez obras-primas, como Crepúsculo dos Deuses. Conhecido por seu ecletismo, ele dirigia tanto ótimas comédias (a melhor delas, Quanto Mais Quente, Melhor) e ótimos dramas (como o filme sobre alcoolismo Farrapo Humano).
Em artigo anterior, destacamos alguns pontos que fazem de Wilder um diretor tão especial. Neste, apresentamos outras características.
Bons finais sempre
Há muitos cineastas cujos filmes são obras-primas. Filmes muito bem escritos, com composições visuais excelentes e interpretações impecáveis. Mas quando chegam ao final, acabam de maneira estranha, que não condiz com a qualidade do restante, enfim, finais passáveis. Com Billy Wilder chega a ser impressionante a coerência de sua carreira no que se trata de tramas bem construídas e bem encerradas.
Talvez o caso mais emblemático deste quadro seja o filme Testemunha de Acusação (1958). Neste, o final é tão surpreendente e importante para a trama que quem assiste ao filme inteiro com exceção dos minutos finais pode ficar com a impressão de que se trata de um filme menor. Nos créditos, há um pedido para que os espectadores não comentem a respeito do final com amigos. Wilder sabia que a força do filme estava no final.
Também temos o que possivelmente é o melhor final de um filme de todos os tempos. Na ultima cena de Quanto Mais Quente Melhor (1959) vemos aquele que é considerado o melhor diálogo final de um filme em todos os tempos. Jack Lemmon, disfarçado de mulher e usando o nome de Daphne, tenta convencer o milionário Osgood que não pode se casar com ele:
Daphne: É, Osgood. Não posso me casar no vestido da sua mãe. É que, eu e ela, nós não temos o mesmo tamanho.
Osgood: Nós podemos alterá-lo.
Daphne: Oh, não faça isso! Osgood, Eu vou falar de uma vez. Não podemos nos casar de forma alguma!
Osgood: Por que não?
Daphne: Bem, em primeiro lugar, eu não sou loira de verdade.
Osgood: Não importa.
Daphne: Eu fumo! Eu fumo o tempo todo!
Osgood: Eu não ligo.
Daphne: Bem, eu tenho um péssimo passado. Faz três anos que eu moro com um saxofonista.
Osgood: Eu te perdoo.
Daphne: Nunca poderemos ter filhos!
Osgood: Podemos adotar alguns.
Daphne: Mas você não entende, Osgood! Eu sou um homem!
Osgood: Bem, ninguém é perfeito!
Esse final, escrito em parceria com I. A. L. Diamond, grande parceiro do diretor, ficou tão famoso que Wilder mandou escrever em seu túmulo: "Eu sou um escritor... mas ninguém é perfeito".
Isso tudo só ocorre porque Wilder, seguindo o princípio consagrado por alguns movimentos cinematográficos que estabelece condições para que um diretor seja também um autor, também roteiriza todos os seus filmes. Esse fato que lhe permitia muito mais liberdade criativa. Esse fator, somado à liberdade que os estúdios lhe davam (poucos diretores desfrutavam deste luxo à época) contribuía para que ele quase sempre optasse pelo melhor final no seu ponto de vista.
Direção de atores
Wilder não era um mestre só ao manejar a câmera. Era também um especialista em tirar de seus atores suas melhores interpretações. O exemplo mais clássico talvez seja Marilyn Monroe em Quanto Mais Quente Melhor. Conta-se que na época ela já estava com problemas psicológicos tão graves que não conseguia decorar nem mesmo uma frase simples, como "I´m sugar!". Ainda assim, sua atuação no filme é perfeita. A cena em que ela tenta conquistar Tony Curtis, que, por sua vez, tenta se fazer de tímido, é uma das melhores do cinema com atuação brilhante dos dois atores. Aliás, essa mesma cena é um exemplo perfeito da maneira como o diretor manejava o diálogo de modo a permitir várias interpretações. Nela, quase toda fala tem duplo sentido.
Eclético
Billy Wilder costumava dizer "ninguém gosta de comer todos os dias a mesma coisa" para justificar a variedade de seus filmes. Ele fez um dos melhores dramas jornalísticos de todos os tempos (A Montanha dos Sete Abutres) e a melhor comédia da história do cinema (Quanto Mais Quente, Melhor). E passeou pelos gêneros noir (Pacto de Sangue), comédia romântica (A Incrível Suzana, Sabrina), filme de guerra (Sete Covas do Egito e Inferno n. 17), comédia de costumes (Se Meu Apartamento Falasse, O Pecado Mora ao Lado), metalinguístico (Crepúsculo dos Deuses) e até policial (A Vida Íntima de Sherlock Holmes). Dos gêneros mais conhecidos de Hollywood, os únicos que ele não abordou foram a ficção científica e o faroeste.
Roteiros
Já foi dito sobre os finais perfeitos de seus filmes, mas quem conhece o trabalho Billy Wilder sabe que tudo em seus filmes era feito em torno do roteiro. A textura da trama era perfeita, sem pontas soltas ou deus ex-machinas (situações ou soluções que não se encaixam no contexto). Até mesmo quando Wilder parece falhar no roteiro, isso na verdade faz parte da trama, como em Testemunha de Acusação, quando uma personagem aparece do nada apresentando provas fundamentais para o julgamento. Além disso, ele manejava o diálogo como poucos, revelando detalhes sobre os personagens a cada fala. Exemplo disso é quando Kirk Douglas, em A Montanha dos Sete Abutres diz que irá conseguir uma grande notícia, mesmo que para isso precise morder um cachorro, mostrando, nessa simples fala, a falta de ética do personagem.
Todos esses fatores e muitos outros fazem com que Billy Wilder seja obrigatório para qualquer um que goste de cinema.
Texto escrito em parceria com Alexandre Magno Andrade.
Gian Danton
(Digest. Cultural)
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Literatura
Anotações de um amante das artes
Márwio Câmara
Com o "boom" das redes sociais compartilhando a todo o momento fragmentos, nem sempre de natureza verossímil, de escritores de forte veia intimista como Clarice Lispector e, de seu assumido admirador, Caio Fernando Abreu, seus nomes passaram a ganhar novamente destaque na literatura nacional e curiosidade (?) entre os jovens leitores.
Embora pertençam a épocas antagônicas à nossa contemporaneidade, o espírito existencialista de suas obras vem cativando a nova geração justamente por falar sobre questões sensitivas do homem, quase numa espécie de catarse intimista - embora, criticamente, nas redes sociais tais escritores venham sendo usados de maneira um tanto quanto superficial e dispersa. Com a contaminação pop - no melhor ou pior sentido da palavra - de seus nomes, novas coletâneas e reedições de suas obras vêm surgindo e despertando o interesse entre as editoras e espaço nas livrarias.
O último lançamento do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu trata-se de uma compilação inédita de crônicas do autor, publicadas, entre os anos 80 e 90, no Jornal O Estado de São Paulo, intitulada A vida gritando nos cantos, editada pela Nova Fronteira, no final do ano passado. O título intimista e de estigma poético foi selecionado pela dupla de pesquisadoras Lara Souto Santana e Liana Farias, responsável pela feitura do livro, e retirado de uma das crônicas de Caio, intitulada "Querem acabar comigo?".
A ideia do livro, inicialmente, surgiu durante as buscas de Liana pelas crônicas assinadas por Caio que abordavam sobre a AIDS, doença que o matou em 1996, e que seria tema de sua monografia de conclusão do curso de Jornalismo, em 2010. Na busca por seus textos, vasculhou cada um dos exemplares do jornal, disponíveis na Biblioteca do Senado Federal, e encontrou um vasto material de crônicas do escritor que nunca havia lido. Com a missão de que estas viessem a público, reuniu-as e foi atrás dos responsáveis pelos direitos autorais. Conheceu Lara, no ano seguinte, que também fazia um trabalho de pesquisa sobre as crônicas inéditas de Caio, e juntas revisaram todo o material, sendo lançado no final de 2012.
Nesta compilação dividida cronologicamente entre os anos de: 1986-1988; 1993-1996 e em crônicas sem data, nos deparamos com um cronista atento às novidades da arte e da indústria do entretenimento, amante da música, da Literatura, do Cinema e do Teatro; e um depurado flâuneur do cotidiano paulistano, atento às transformações sociopolíticas do Brasil de seu tempo. Suas crônicas são como uma espécie de diário de anotações, onde Caio F. dialoga com o seu leitor, despretensiosamente, sobre arte, política e vida, indo da música dos The Doors ao disco Totalmente demais, do Caetano Veloso; da poesia de Drummond aos elogios feitos ao diretor Woody Allen, com o filme Hannah e suas irmãs; recordações de sua primeira ida ao bairro de Santa Tereza à experiência de morar numa comunidade hippie. Tudo junto e misturado. Jazz, Blues, Rock, MPB, Cinema, Literatura, agradecimentos, memórias, saudações, puxões de orelhas, homenagens e lamentações.
"Semana passada, me deu uma vergonha tão grande de morar numa cidade que tem como prefeito essa figura lamentável do sr. Jânio Quadros, que até pensei: bom, no domingo sento e escrevo sobre isso. Uma crônica/carta irada, reclamando da sujeira das ruas, da violência solta, do barulho, da poluição, do lixo. Uma carta raivosa, cheia de cobranças. Lamentando a burrice deste povo que elegeu o sr. Jânio como prefeito e é bem capaz de, nas próximas (cadê?) eleições diretas para presidente, votar naquele outro senhor - o João Baptista Figueiredo. Uma carta sugerindo o internamento imediato do sr. Jânio (como ele fez com a própria filha) para uma boa - digamos - faxina mental. Com muito detergente."
(Trecho de "Ninguém merece Jânio Quadros", assinada em 28 de outubro de 1987. A vida gritando nos cantos, pág. 127.)
Em outra crônica, ele relata o esgotamento existencial, após terminar de escrever um de seus livros:
"Escrevendo na manhã de segunda-feira. Céu muito azul. As moças da loja de bicicleta lavam as vitrinas. Eu bebo café, abro janelas. Como uma carta para vários remetentes, apara nenhum remetente. Despedida rápida, provisória: vou ficar algum tempo sem escrever aqui, pelo menos até dia 6 de janeiro. Um pouco porque vou viajar, tenho um trabalho a fazer no Rio de Janeiro. Mas principalmente porque preciso de tempo — me dar um tempo, sabe como? Ando meio esvaziado. Nos últimos tempos, investi todas as energias para terminar um livro — chama-se Os dragões não conhecem o paraíso. Não me sinto capaz de falar sobre ele. Está ponto, entregue. Foi demorado, foi difícil, talvez mais difícil que qualquer outro dos anteriores. Às vezes, escreve-se um livro como se fosse para não morrer. Eu disse às vezes, mas me pergunto se não será quase sempre assim. De qualquer forma. Este foi. E não que seja um livro "triste". Ao contrário: acho que é cheio de vida. Também não sei se tudo que é assim, cheio de vida, não será sempre também um pouco triste. Em abril, estará nas livrarias. Então conversamos."
(Trecho de "Despedida provisória", assinada em 16 de dezembro de 1987. A vida gritando nos cantos, cap. 137.)
A vida gritando nos cantos é um aparato do escritor, jornalista, crítico e cronista - e um eterno amante das artes -, codificados na figura de Caio Fernando Abreu. Uma conversa de bar com direito a uísque e cigarros ao som de Billie Holiday, Cazuza, Caetano, Angela Rô Rô, Nara Leão entre tantos outros. Um ótimo livro para os apreciadores de sua prosa esmiuçar o seu lado perspicaz e abrangente de cronista, e, evidentemente, para reforçar o boom das redes sociais que, felizmente ou infelizmente, o fizera, na geração virtual, um escritor um tanto quanto popular.
Márwio Câmara
(Digest. Cultural)
Márwio Câmara
Com o "boom" das redes sociais compartilhando a todo o momento fragmentos, nem sempre de natureza verossímil, de escritores de forte veia intimista como Clarice Lispector e, de seu assumido admirador, Caio Fernando Abreu, seus nomes passaram a ganhar novamente destaque na literatura nacional e curiosidade (?) entre os jovens leitores.
Embora pertençam a épocas antagônicas à nossa contemporaneidade, o espírito existencialista de suas obras vem cativando a nova geração justamente por falar sobre questões sensitivas do homem, quase numa espécie de catarse intimista - embora, criticamente, nas redes sociais tais escritores venham sendo usados de maneira um tanto quanto superficial e dispersa. Com a contaminação pop - no melhor ou pior sentido da palavra - de seus nomes, novas coletâneas e reedições de suas obras vêm surgindo e despertando o interesse entre as editoras e espaço nas livrarias.
O último lançamento do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu trata-se de uma compilação inédita de crônicas do autor, publicadas, entre os anos 80 e 90, no Jornal O Estado de São Paulo, intitulada A vida gritando nos cantos, editada pela Nova Fronteira, no final do ano passado. O título intimista e de estigma poético foi selecionado pela dupla de pesquisadoras Lara Souto Santana e Liana Farias, responsável pela feitura do livro, e retirado de uma das crônicas de Caio, intitulada "Querem acabar comigo?".
A ideia do livro, inicialmente, surgiu durante as buscas de Liana pelas crônicas assinadas por Caio que abordavam sobre a AIDS, doença que o matou em 1996, e que seria tema de sua monografia de conclusão do curso de Jornalismo, em 2010. Na busca por seus textos, vasculhou cada um dos exemplares do jornal, disponíveis na Biblioteca do Senado Federal, e encontrou um vasto material de crônicas do escritor que nunca havia lido. Com a missão de que estas viessem a público, reuniu-as e foi atrás dos responsáveis pelos direitos autorais. Conheceu Lara, no ano seguinte, que também fazia um trabalho de pesquisa sobre as crônicas inéditas de Caio, e juntas revisaram todo o material, sendo lançado no final de 2012.
Nesta compilação dividida cronologicamente entre os anos de: 1986-1988; 1993-1996 e em crônicas sem data, nos deparamos com um cronista atento às novidades da arte e da indústria do entretenimento, amante da música, da Literatura, do Cinema e do Teatro; e um depurado flâuneur do cotidiano paulistano, atento às transformações sociopolíticas do Brasil de seu tempo. Suas crônicas são como uma espécie de diário de anotações, onde Caio F. dialoga com o seu leitor, despretensiosamente, sobre arte, política e vida, indo da música dos The Doors ao disco Totalmente demais, do Caetano Veloso; da poesia de Drummond aos elogios feitos ao diretor Woody Allen, com o filme Hannah e suas irmãs; recordações de sua primeira ida ao bairro de Santa Tereza à experiência de morar numa comunidade hippie. Tudo junto e misturado. Jazz, Blues, Rock, MPB, Cinema, Literatura, agradecimentos, memórias, saudações, puxões de orelhas, homenagens e lamentações.
"Semana passada, me deu uma vergonha tão grande de morar numa cidade que tem como prefeito essa figura lamentável do sr. Jânio Quadros, que até pensei: bom, no domingo sento e escrevo sobre isso. Uma crônica/carta irada, reclamando da sujeira das ruas, da violência solta, do barulho, da poluição, do lixo. Uma carta raivosa, cheia de cobranças. Lamentando a burrice deste povo que elegeu o sr. Jânio como prefeito e é bem capaz de, nas próximas (cadê?) eleições diretas para presidente, votar naquele outro senhor - o João Baptista Figueiredo. Uma carta sugerindo o internamento imediato do sr. Jânio (como ele fez com a própria filha) para uma boa - digamos - faxina mental. Com muito detergente."
(Trecho de "Ninguém merece Jânio Quadros", assinada em 28 de outubro de 1987. A vida gritando nos cantos, pág. 127.)
Em outra crônica, ele relata o esgotamento existencial, após terminar de escrever um de seus livros:
"Escrevendo na manhã de segunda-feira. Céu muito azul. As moças da loja de bicicleta lavam as vitrinas. Eu bebo café, abro janelas. Como uma carta para vários remetentes, apara nenhum remetente. Despedida rápida, provisória: vou ficar algum tempo sem escrever aqui, pelo menos até dia 6 de janeiro. Um pouco porque vou viajar, tenho um trabalho a fazer no Rio de Janeiro. Mas principalmente porque preciso de tempo — me dar um tempo, sabe como? Ando meio esvaziado. Nos últimos tempos, investi todas as energias para terminar um livro — chama-se Os dragões não conhecem o paraíso. Não me sinto capaz de falar sobre ele. Está ponto, entregue. Foi demorado, foi difícil, talvez mais difícil que qualquer outro dos anteriores. Às vezes, escreve-se um livro como se fosse para não morrer. Eu disse às vezes, mas me pergunto se não será quase sempre assim. De qualquer forma. Este foi. E não que seja um livro "triste". Ao contrário: acho que é cheio de vida. Também não sei se tudo que é assim, cheio de vida, não será sempre também um pouco triste. Em abril, estará nas livrarias. Então conversamos."
(Trecho de "Despedida provisória", assinada em 16 de dezembro de 1987. A vida gritando nos cantos, cap. 137.)
A vida gritando nos cantos é um aparato do escritor, jornalista, crítico e cronista - e um eterno amante das artes -, codificados na figura de Caio Fernando Abreu. Uma conversa de bar com direito a uísque e cigarros ao som de Billie Holiday, Cazuza, Caetano, Angela Rô Rô, Nara Leão entre tantos outros. Um ótimo livro para os apreciadores de sua prosa esmiuçar o seu lado perspicaz e abrangente de cronista, e, evidentemente, para reforçar o boom das redes sociais que, felizmente ou infelizmente, o fizera, na geração virtual, um escritor um tanto quanto popular.
Márwio Câmara
(Digest. Cultural)
quinta-feira, 2 de maio de 2013
PT
PT deixou de ser partido de transformação social, diz um de seus fundadores
Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo
Um dos líderes da guerrilha urbana, o jornalista Cid Benjamin está lançando o livro ‘Gracias a la Vida’, no qual fala de sua experiência na luta armada.
Numa entrevista ao jornal O Dia Dia, Cid falou sobre os dez anos no poder do PT, do qual foi um dos fundadores.
Abaixo, uma condensação de suas reflexões:
“O PT deixou de ser um partido de transformação social, o que não quer dizer que seus integrantes, pelo menos a maioria, não têm mais essa perspectiva. Mas a direção do PT… o rumo que tomou não é transformador.
Embora eu reconheça melhorias em relação aos governos anteriores, é muito pouco para o que eu queria do PT.
Na histórica eleição de 1989, o melhor para o país teria sido a eleição de Leonel Brizola. Pela educação. Acho que ela tem de ser prioridade em qualquer governo, de esquerda ou direita. Se o PT tivesse revolucionado a educação fundamental nestes 11 anos, já teria sido um legado enorme. Mas nunca fizeram isso.
Aliás, não há quem cite neste governo uma única medida que tenha contrariado o interesse das classes dominantes, dos bancos, dos empreiteiros, das multinacionais e do agronegócio.
Eu acho frustrante o governo da Dilma porque não é de transformação social. Não mexe com os interesses dos ricos, não faz as reformas necessárias e constrói a governabilidade montando uma geleia de partidos que o imobiliza. São tantas concessões que não permitem as transformações, apenas permitem que o governo não seja incomodado.”
(Blog do nassif)
Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo
Um dos líderes da guerrilha urbana, o jornalista Cid Benjamin está lançando o livro ‘Gracias a la Vida’, no qual fala de sua experiência na luta armada.
Numa entrevista ao jornal O Dia Dia, Cid falou sobre os dez anos no poder do PT, do qual foi um dos fundadores.
Abaixo, uma condensação de suas reflexões:
“O PT deixou de ser um partido de transformação social, o que não quer dizer que seus integrantes, pelo menos a maioria, não têm mais essa perspectiva. Mas a direção do PT… o rumo que tomou não é transformador.
Embora eu reconheça melhorias em relação aos governos anteriores, é muito pouco para o que eu queria do PT.
Na histórica eleição de 1989, o melhor para o país teria sido a eleição de Leonel Brizola. Pela educação. Acho que ela tem de ser prioridade em qualquer governo, de esquerda ou direita. Se o PT tivesse revolucionado a educação fundamental nestes 11 anos, já teria sido um legado enorme. Mas nunca fizeram isso.
Aliás, não há quem cite neste governo uma única medida que tenha contrariado o interesse das classes dominantes, dos bancos, dos empreiteiros, das multinacionais e do agronegócio.
Eu acho frustrante o governo da Dilma porque não é de transformação social. Não mexe com os interesses dos ricos, não faz as reformas necessárias e constrói a governabilidade montando uma geleia de partidos que o imobiliza. São tantas concessões que não permitem as transformações, apenas permitem que o governo não seja incomodado.”
(Blog do nassif)
Pensamentando
El valor de un solo hombre
Rómulo Pardo Silva
Un día empezó a hablar de impedir la más cruel de todas las guerras
quizás la última
Los poderes no parecían oírle
pero él sin flaquear acusó
están activando la destrucción del mundo
Ante millones de hombres mal informados o indiferentes
no dudó en exponerse a la burla
de los miles de intrigantes remunerados
No se detiene ni desalienta, es su deber
luchó antes cada día y no va a cambiar
Lee, escucha, pregunta, piensa y une los datos con lógica,
sabe mucho de planes siniestros extranjeros
y tiene información de confianza
Ama la vida, lo ha demostrado sembrando humanidades
pero ahora divisa hongos atómicos gigantes
humaredas divagando en continentes silenciosos
imágenes de madres vueltas transparentes
Levanta la voz y fija los ojos oscuros desde su altura:
Hay que impedir que el poscapitalismo sea una época primitiva
Su admonición logra abrir grietas en el silencio que construyeron
y se derrama un hilo de alarma en el planeta
Precursor, escribe una sentencia por las soluciones sin armas,
instala un reloj que descuenta los días
hasta que estalle la corteza repleta de muertes
Ese hombre solo es uno de los sabios de los mitos heroicos
de la raza selecta que guiará mientras no escapen
de su celda los neutrones
Haga click aquí para recibir gratis Argenpress en su correo electrónico.
Rómulo Pardo Silva
Un día empezó a hablar de impedir la más cruel de todas las guerras
quizás la última
Los poderes no parecían oírle
pero él sin flaquear acusó
están activando la destrucción del mundo
Ante millones de hombres mal informados o indiferentes
no dudó en exponerse a la burla
de los miles de intrigantes remunerados
No se detiene ni desalienta, es su deber
luchó antes cada día y no va a cambiar
Lee, escucha, pregunta, piensa y une los datos con lógica,
sabe mucho de planes siniestros extranjeros
y tiene información de confianza
Ama la vida, lo ha demostrado sembrando humanidades
pero ahora divisa hongos atómicos gigantes
humaredas divagando en continentes silenciosos
imágenes de madres vueltas transparentes
Levanta la voz y fija los ojos oscuros desde su altura:
Hay que impedir que el poscapitalismo sea una época primitiva
Su admonición logra abrir grietas en el silencio que construyeron
y se derrama un hilo de alarma en el planeta
Precursor, escribe una sentencia por las soluciones sin armas,
instala un reloj que descuenta los días
hasta que estalle la corteza repleta de muertes
Ese hombre solo es uno de los sabios de los mitos heroicos
de la raza selecta que guiará mientras no escapen
de su celda los neutrones
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Presos políticos
Começam a funcionar clínicas especiais para ex-presos políticos
Cinco clínicas especializadas em saúde mental para ex-presos políticos atingidos pela ditadura civil-militar de 1964/1987 começam a funcionar nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. Essas clínicas são resultantes de uma parceria firmada entre organizações não governamentais de saúde mental, universidades e o Ministério da Justiça, por meio da Comissão de Anistia.
Dermi Azevedo
Cinco clínicas especializadas em saúde mental para ex-presos políticos atingidos pela ditadura civil-militar de 1964/1987 começam a funcionar em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. São resultantes de parceria entre ONGs de saúde mental, universidades e o Ministério da Justiça, por meio da Comissão de Anistia. Há um mês, esse projeto realiza o que chama de conversas públicas das clínicas de testemunho, que recolhe sugestões para a capacitação profissional de técnicos para que atuem em demandas específicas dos ex-presos políticos.
Entre as sugestões encaminhadas aos coordenadores do projeto inclui-se a realização de estudos para incluir esse tipo específico de tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta não foi descartada pelo Ministério da Saúde, mas ainda se encontra em fase inicial de estudos. Em São Paulo, a criação das clínicas tem apoio da Assembléia Legislativa.
Madre Cristina
A linha de trabalho predominante no trabalho das clínicas inspira-se nos princípios seguidos pelo Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. A referência técnica e política do trabalho é a madre Cristina Sodré Dória, religiosa da congregação de santo Agostinho,falecida em 1997. Além de educadora,era psicóloga e diretora do Instituto Sedes Sapientiae. Seu nome está também incluído em todas as iniciativas ligadas a reconquista da democracia do Brasil.
(Carta Maior)
Cinco clínicas especializadas em saúde mental para ex-presos políticos atingidos pela ditadura civil-militar de 1964/1987 começam a funcionar nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. Essas clínicas são resultantes de uma parceria firmada entre organizações não governamentais de saúde mental, universidades e o Ministério da Justiça, por meio da Comissão de Anistia.
Dermi Azevedo
Cinco clínicas especializadas em saúde mental para ex-presos políticos atingidos pela ditadura civil-militar de 1964/1987 começam a funcionar em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. São resultantes de parceria entre ONGs de saúde mental, universidades e o Ministério da Justiça, por meio da Comissão de Anistia. Há um mês, esse projeto realiza o que chama de conversas públicas das clínicas de testemunho, que recolhe sugestões para a capacitação profissional de técnicos para que atuem em demandas específicas dos ex-presos políticos.
Entre as sugestões encaminhadas aos coordenadores do projeto inclui-se a realização de estudos para incluir esse tipo específico de tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta não foi descartada pelo Ministério da Saúde, mas ainda se encontra em fase inicial de estudos. Em São Paulo, a criação das clínicas tem apoio da Assembléia Legislativa.
Madre Cristina
A linha de trabalho predominante no trabalho das clínicas inspira-se nos princípios seguidos pelo Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. A referência técnica e política do trabalho é a madre Cristina Sodré Dória, religiosa da congregação de santo Agostinho,falecida em 1997. Além de educadora,era psicóloga e diretora do Instituto Sedes Sapientiae. Seu nome está também incluído em todas as iniciativas ligadas a reconquista da democracia do Brasil.
(Carta Maior)
quarta-feira, 1 de maio de 2013
O Papa e as mulheres
O papa, os cardeais e as mulheres
Com a chegada de um novo pontífice, dá-se muita atenção aos sinais de evolução ou de mudança em todos os âmbitos sensíveis do catolicismo. O do lugar das mulheres na Igreja é um dos temas importantes. Tendo vivido menos do que o antecessor em seminários e em escritórios romanos, o Papa Francisco faz nascer esperanças naqueles homens e mulheres que estão finalmente à espera de sinais.
A reportagem é de Philippe Clanché, publicada no blog Cathoreve, 25-04-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A partir da Semana Santa, eles não ficaram decepcionados ao ver que, assim como quando ele era arcebispo de Buenos Aires, Francisco lavou os pés de duas mulheres durante a missa de Quinta-feira Santa. E isso apesar de certas pressões.
E eis que o coordenador do seu grupo de oito cardeais conselheiros em vista da reforma da Cúria, Oscar Rodriguez Maradiaga, abriu uma porta, em uma entrevista ao Sunday Times, publicada no dia 21 de abril. O cardeal hondurenho aprova "a ideia de nomear mulheres para postos-chave da Santa Sé". Nossa! Conta-se que João XXIII, com um leve traço irônico, disse um dia no Vaticano: "Aqui faltam mulheres". Será que ele finalmente foi ouvido?
Esperava-se, então, uma reacção oficial da Santa Sé a essa frase lançada para testar o clima atual... E chegou, muito rapidamente, do padre Lombardi, diretor da Sala de Imprensa. "É uma etapa natural. Orientamo-nos para um número maior de mulheres nomeadas para papéis-chave para os quais estejam qualificadas".
Duas frases curtas que merecem uma exegese. Falar de uma "etapa" pode fazer pensar que a ideia se insere em um programa mais longo de promoção da mulher no topo da hierarquia. Acrescentar o adjetivo "natural" é muito intrigante. Por que foi preciso esperar até hoje para imaginar uma evolução "natural"? Lembremos que, de maneira "natural", as mulheres representam cerca de metade da humanidade. E que, ao menos no Ocidente, elas estão claramente em maioria nas igrejas.
Quanto à palavra "maior", ela levaria a pensar que, às vezes, encontram-se saias ao lado das túnicas nos escritórios da Santa Sé. Resta provar que elas não pertencem só às pessoas encarregadas da limpeza, da restauração ou das traduções, empregos certamente nobres, mas, francamente, não decisionais.
Evidentemente, estando o padre Lombardi formado para a prudência, aparece uma grande nota bemol na sua proposta. As mulheres poderiam ser confiadas aos cargos "para os quais estejam qualificadas". Não vemos a hora de conhecer os perfis dos postos emitidos pela Direção de Recursos Humanos do Vaticano!
Se é questão de diplomas de teologia, se encontrarão mulheres – quer sejam religiosas, celibatárias, mães de família. Ao contrário, se os postos de chefia de serviço continuarem reservados a bispos ordenados ou que podem ser ordenados para a ocasião, então algo não vai bem.
Os presidentes das Congregações hoje são sistematicamente cardeais. Para responder ao desejo dos nossos eminentes militantes da promoção feminina, bastaria rever o Código de Direito Canônico de 1983, que havia removido a antiga possibilidade de nomear um leigo entre os sábios do Sacro Colégio e de abrir o seu acesso às mulheres (1).
Uma ideia defendida particularmente pela teóloga Anne Soupa, cofundadora do Comité de la Jupe e autora de Dieu aime-t-il les femmes (Ed. Tallandier). Ela recordou isso no dia 23 de abril, por ocasião de um debate em Paris com Dom Jean-Luc Brunin, bispo de Le Havre e presidente do Conselho Família e Sociedade do episcopado francês.
As autoridades eclesiásticas até gostariam de confiar a mulheres cargos importantes na Santa Sé, mas realmente não podem por enquanto. Portanto, é hora de passar das declarações de intenção – encorajadoras – para as reformas estruturais que permitiriam essa realidade.
Em um romance precursor Vatican 2035, publicado em 2005 pelas edições Plon, Pietro de Paoli, pseudônimo de Christine Pedotti, já previa tais reformas. No livro, liam-se as aventuras de uma leiga celibatária que ocupava o prestigioso cargo de teóloga da Casa Pontifícia. Ela se tornaria, com outras duas, "cardinalessa" da Santa Sé.
Visto que foi escrito...
(Adital)
Com a chegada de um novo pontífice, dá-se muita atenção aos sinais de evolução ou de mudança em todos os âmbitos sensíveis do catolicismo. O do lugar das mulheres na Igreja é um dos temas importantes. Tendo vivido menos do que o antecessor em seminários e em escritórios romanos, o Papa Francisco faz nascer esperanças naqueles homens e mulheres que estão finalmente à espera de sinais.
A reportagem é de Philippe Clanché, publicada no blog Cathoreve, 25-04-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A partir da Semana Santa, eles não ficaram decepcionados ao ver que, assim como quando ele era arcebispo de Buenos Aires, Francisco lavou os pés de duas mulheres durante a missa de Quinta-feira Santa. E isso apesar de certas pressões.
E eis que o coordenador do seu grupo de oito cardeais conselheiros em vista da reforma da Cúria, Oscar Rodriguez Maradiaga, abriu uma porta, em uma entrevista ao Sunday Times, publicada no dia 21 de abril. O cardeal hondurenho aprova "a ideia de nomear mulheres para postos-chave da Santa Sé". Nossa! Conta-se que João XXIII, com um leve traço irônico, disse um dia no Vaticano: "Aqui faltam mulheres". Será que ele finalmente foi ouvido?
Esperava-se, então, uma reacção oficial da Santa Sé a essa frase lançada para testar o clima atual... E chegou, muito rapidamente, do padre Lombardi, diretor da Sala de Imprensa. "É uma etapa natural. Orientamo-nos para um número maior de mulheres nomeadas para papéis-chave para os quais estejam qualificadas".
Duas frases curtas que merecem uma exegese. Falar de uma "etapa" pode fazer pensar que a ideia se insere em um programa mais longo de promoção da mulher no topo da hierarquia. Acrescentar o adjetivo "natural" é muito intrigante. Por que foi preciso esperar até hoje para imaginar uma evolução "natural"? Lembremos que, de maneira "natural", as mulheres representam cerca de metade da humanidade. E que, ao menos no Ocidente, elas estão claramente em maioria nas igrejas.
Quanto à palavra "maior", ela levaria a pensar que, às vezes, encontram-se saias ao lado das túnicas nos escritórios da Santa Sé. Resta provar que elas não pertencem só às pessoas encarregadas da limpeza, da restauração ou das traduções, empregos certamente nobres, mas, francamente, não decisionais.
Evidentemente, estando o padre Lombardi formado para a prudência, aparece uma grande nota bemol na sua proposta. As mulheres poderiam ser confiadas aos cargos "para os quais estejam qualificadas". Não vemos a hora de conhecer os perfis dos postos emitidos pela Direção de Recursos Humanos do Vaticano!
Se é questão de diplomas de teologia, se encontrarão mulheres – quer sejam religiosas, celibatárias, mães de família. Ao contrário, se os postos de chefia de serviço continuarem reservados a bispos ordenados ou que podem ser ordenados para a ocasião, então algo não vai bem.
Os presidentes das Congregações hoje são sistematicamente cardeais. Para responder ao desejo dos nossos eminentes militantes da promoção feminina, bastaria rever o Código de Direito Canônico de 1983, que havia removido a antiga possibilidade de nomear um leigo entre os sábios do Sacro Colégio e de abrir o seu acesso às mulheres (1).
Uma ideia defendida particularmente pela teóloga Anne Soupa, cofundadora do Comité de la Jupe e autora de Dieu aime-t-il les femmes (Ed. Tallandier). Ela recordou isso no dia 23 de abril, por ocasião de um debate em Paris com Dom Jean-Luc Brunin, bispo de Le Havre e presidente do Conselho Família e Sociedade do episcopado francês.
As autoridades eclesiásticas até gostariam de confiar a mulheres cargos importantes na Santa Sé, mas realmente não podem por enquanto. Portanto, é hora de passar das declarações de intenção – encorajadoras – para as reformas estruturais que permitiriam essa realidade.
Em um romance precursor Vatican 2035, publicado em 2005 pelas edições Plon, Pietro de Paoli, pseudônimo de Christine Pedotti, já previa tais reformas. No livro, liam-se as aventuras de uma leiga celibatária que ocupava o prestigioso cargo de teóloga da Casa Pontifícia. Ela se tornaria, com outras duas, "cardinalessa" da Santa Sé.
Visto que foi escrito...
(Adital)
Poemas
José Régio – Cântico negro
Posted: 29 Apr 2013 05:18 AM PDT
José Régio – Cântico negro
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!
( José Régio )
( Poemas de Deus e do Diabo, 4a e9d., Lisboa, Portugália, 1955, pp. 1908-110.)
jose-regio
Posted: 29 Apr 2013 05:18 AM PDT
José Régio – Cântico negro
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!
( José Régio )
( Poemas de Deus e do Diabo, 4a e9d., Lisboa, Portugália, 1955, pp. 1908-110.)
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