Onze de setembro: dez anos depois
16/09/2011 | José Farhat
Onze de setembro: dez anos depoispor José FarhatLogo após o ataque às Torres Gêmeas, em 9 de setembro de 2001, e até há poucos anos depois, quem ousasse interromper um jogo de gamão ou a baforada de um narguilé, em qualquer café de Beirute ou Clube de árabes em São Paulo e perguntasse quem foi o autor do atentado, é provável que ouvisse uma quase unânime resposta: “C.I.A. e Mossad”! Escrevemos um relato intitulado Onze de Setembro Sete Anos Depois, em 11/09/11, dando conta desta linha de pensamento árabe e também muçulmano, por andarem em paralelo.Hoje, no entanto, já não se atribui este ato terrorista às duas agências de inteligência e sim a seus reais autores: al-Qaida e seus pupilos. Alguma insistência naquela errônea versão ainda ocorre, tal como existem pessoas que ainda consideram uma farsa televisiva a chegada de Neil Alden Armstrong à lua e seu pronunciamento em nome da humanidade.A grande maioria de árabes e muçulmanos nunca apoiou a al-Qaida e sobretudo o crime que cometeu em território estadunidense, salvo as desprezíveis exceções de sempre que se manifestaram em 2001. Boa parte destes segue atualmente a mesma linha traçada por Peter L. Bergen, em seu livro The Longest War: The Enduring Conflict Between America and Al-Qaeda [A mais longa guerra: O conflito duradouro entre América e al-Qaida] no qual é analisado o sentido do que ocorreu naquele dia nefasto, mas também as consequências daquela agressão desumana, entender a guerra no Afeganistão, a ocupação do Iraque, as relações perturbadas dos Estados Unidos com o Paquistão, as perspectivas do relacionamento entre árabes e muçulmanos com o chamado Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, às vezes ocultados pela couraça da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), as torturas cometidas e os programas de remessa às escondidas de prisioneiros a outros países para que fossem cruelmente interrogados e às vezes até eliminados e a caça e a morte de Bin Ladin. Seguindo Bergen, analista de segurança nacional da Rede CNN e diretor de estudos de segurança da New American Foundation que coletou dados junto a autores e organizações, fizemos o mesmo, salvo por uma única exceção, procuramos trazer para este estudo a opinião de não árabes e não muçulmanos. A bem da verdade, Bergen chegou a ser criticado pelo establishment estadunidense, à falta de outra desculpa, por não ter dado maiores detalhes sobre o Afeganistão.Aquilo que árabes e muçulmanos, inclusive na Tríplice Fronteira de Brasil, Argentina e Paraguai, em todo o Brasil, em países árabes ou de maioria muçulmana indagam não é diferente daquilo que fazem os próprios cidadãos estadunidenses. Atualmente em sua grande maioria eles se impressionam: uma década depois do 11/9 os Estados Unidos continuam lutando no Afeganistão e ainda não saíram do Iraque (e apesar de acordo firmado com o governo iraquiano estão procurando encontrar um meio, qualquer um, para lá ficar), tudo apesar de não ter ocorrido qualquer ataque terrorista desde então. O espanto maior é que foi gasto mais de US$ 1 trilhão nos combates, milhares de estadunidenses foram mortos e não há dúvida que Tio Sam inspirou o surgimento de oposição odiosa por parte de árabes e muçulmanos, onde quer que se encontrem. Cada árabe ou muçulmano lamenta a perda de centenas de milhares de vidas dos seus, tão inocentes quanto os cerca de três milhares de vítimas das Torres Gêmeas. É-lhes dolorido constatarem o que pode ser considerado uma discriminação entre vítimas civis inocentes: “as deles e as nossas”. O mundo ouviu as palavras de George W. Bush no dia do ataque e duas vezes depois e seus discursos foram pronunciados em alto e bom som, o suficiente para que árabes e muçulmanos ouvissem que a reação estadunidense seria uma cruzada. Lamentam eles também as agressões que se seguiram ao 11/9, por parte de Estados Unidos e seus aliados em terras árabes ou muçulmanas. Sentem profundamente o apoio que é dado a Israel e os abusos que este comete contra os palestinos que são tanto árabes quanto muçulmanos em sua maioria, mas também cristãos. A reação ao tratamento dado por Israel aos lugares santos do Cristianismo e do Islã não se limitam ao estado hebreu e sim abrangem os Estados Unidos e seus aliados. Ninguém pode negar que foram, em última instância, os inúmeros adiamentos da decisão de ingresso da Turquia na União Europeia, que teve sua origem nas campanhas contra o Islã, a razão para levar o estado turco a desistir de sua candidatura ao ingresso na organização. Isto apesar de o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mentiroso contumaz, dizer que era a favor da entrada do país de maioria muçulmana para o seio da organização europeia. Pode-se também considerar que a deterioração das relações entre Israel e Turquia tem em 11/9 suas origens remotas.A própria criação do Instituto da Cultura Árabe no Brasil (Icarabe) tem indiretamente no episódio suas origens. Os ataques a Edward W. Saïd (1935-2003), palestino-estadunidense, teórico de literatura, professor de inglês e literatura comparada na Columbia University e defensor da causa palestina, recrudesceu com a implementação da “caça às bruxas” nos Estados Unidos após o 11/9. Saïd passou a ser atacado por sua origem e até ameaçada foi a sua cátedra na universidade. Os ataques repercutiram no Brasil e encorajaram a união de intelectuais em sua defesa. O apoio a Saïd foi ampliado para a causa palestina em particular e árabe em geral e à rica cultura árabe, o que consequentemente resultou na criação do Icarabe, que o tem como patrono. Falamos do 11/9 e de algumas poucas de suas repercussões, mas não chegamos a definir o que é terrorismo, o motivo das cruzadas de Bush filho. Em artigo publicado em 02/09/2011, o professor de Ciência Política da Aligarth Muslim University, na Índia, M. Mohibul Haque publicou um artigo no Countercurrents.org intitulado Deconstruction of Discourse on Terrorism [Desconstrução discurso sobre terrorismo] no qual ele sublinha que o sentido do termo ‘terrorismo’, apesar de ser aquele que por mais longo tempo se discute em círculos acadêmicos e governamentais, tem “implicações perigosas [que] não são sentidas” e afirma ademais que “a ausência de uma definição objetiva de terrorismo é mais proposital do que acidental”. Haque acrescenta ainda: “a desonestidade da fraternidade acadêmica e o dúbio comportamento de governos nacionais são responsáveis por tais problemas”. Vindo para o nosso assunto, o professor da AMU chega diretamente ao âmago da questão ao afirmar: “Terrorismo é um ato político ou ideológico motivado por violência contra homens ou mulheres comuns. Ele pode ser cometido por indivíduo, grupo, organização ou estado. No entanto, infelizmente este discurso sobre terrorismo foi sequestrado por nações poderosas do mundo que nunca querem que seus atos de injustificável violência devam ser discutidos no contexto de terrorismo. Isto é muito evidente nos efeitos dos ataques terroristas de 11 de setembro contra os Estados Unidos. A assim chamada guerra global declarada contra o terror e que está sendo travada por Estados Unidos e um punhado de seus aliados tem tentado tapear que na presente circunstância o terrorismo é monopólio de não-estados. Assim, a matança de pessoas inocentes cidadãs de Afeganistão, Iraque, Somália e Kosovo por uma aliança imperialista não é absolutamente terrorismo.” Professor Haque conclui dizendo que “Terrorismo deve ser definido e determinado mais com base em atos cometidos que em atores envolvidos.” Albert ‘Al’ Gore vice-presidente durante os oito anos de governo William ‘Bill’ Clinton, não é árabe e nem tampouco muçulmano, com sua insuspeita pena, escreveu um livro sob o título The Assault on Reason [O assalto à razão] no qual atacou George W. Bush dizendo que ele estava “fora de alcance da realidade” e ignorou “claros avisos” sobre a ameaça terrorista antes do 11/9 e que ele tornou os estadunidenses menos seguros “agitando vespeiros no Iraque” enquanto usava “a linguagem e a política do medo” a fim de “desviar a agenda pública sem atentar para a evidência, os fatos ou o interesse público”. Gore poderia até estar investindo contra Bush por razões eleitoreiras, o que é negado por todas as resenhas do livro às quais tive acesso, mas há um fato inegável a respeito do assunto. Bush não deu ouvidos aos “claros avisos” porque com ou sem o 11/9 seus planos eram outros e o ataque da al-Qaida serviram apenas de desculpa. Em artigo publicado em 15/09/2002, sob o título Planned Iraq 'Regime Change' Before Becoming President [Plano de ‘mudança de regime’ no Iraque antes de se tornar presidente], o jornalista Neil Mackay dá conta em artigo de 15/09/2002, que um resumo secreto de documento sobre a dominação global dos Estados Unidos revela que Bush filho e seu gabinete estavam planejando e premeditando atacar o Iraque a fim de assegurar uma ‘mudança de regime’ bem antes de quando este assumiu a presidência em janeiro de 2001. Quem revelou a existência do documento sobre a criação da ‘Global Pax Americana’ foi o jornal Sunday Herald que informa serem autores do resumo Richard ‘Dick’ Cheney (que se tornaria vice-presidente de Bush filho), Donald Rumsfeld (que seria nomeado secretário de defesa), Paul Wolfowitz (segundo de Rumsfeld), John ‘Jeb’ Bush (irmão de Bush filho e depois governador da Florida e que ajudaria o irmão a ser reeleito) e Lewis Libby (chefe de gabinete de Cheney). O documento original, sob o título de Rebuilding America’s Defense: Strategies, Forces And Resources For a New Century [Reconstruindo a defesa dos Estados Unidos: Estratégias, forças e recursos para um novo século] foi redigido em setembro de 2000 (um ano antes do 11/9) pelo neoconservador grupo chamado Project for the New American Century [Projeto para um novo século estadunidense]. Tanto isto é verdade que na reunião da cúpula governamental estadunidense, no dia dos acontecimentos do 11/9, ao saber do ocorrido Paul Wolfowitz gritou: “Foi Saddam Hussein, vamos atacar o Iraque!” e, em seguida, ao surgir a figura de Bin Ladin, decidiu-se pelo ataque ao Afeganistão em primeiro lugar. Não precisa ser árabe ou muçulmano para começar desconfiando e depois ter certeza que tudo tinha sido planejado com antecedência e os ataques de 11/9 e suas vítimas foram tão somente usados e os países árabes e muçulmanos também. No documento Rebuilding America’s Defense (capítulo II Quatro missões essenciais - página 5) estão traçadas as metas: “A liderança mundial dos Estados Unidos e seu papel de garantidor da atual paz da grande potência, assenta na segurança do território estadunidense; na preservação de uma balança favorável de poder na Europa, no Oriente Médio e na região circunvizinha produtora de energia e Leste Asiático; e na estabilidade do sistema internacional de estados-nações relativo a terroristas, crime organizado e outros ‘não-estados’ atores.” No dia 06/09/2011, por ocasião do décimo aniversário do 11/9 o britânico Oxford Research Group publicou um relatório sob o sugestivo título de A War Gone Badly Wrong – The War on Terror Ten Years On [Uma Guerra que seguiu muito errada – A Guerra contra o terror continua por dez anos] com reflexões sobre os erros catastróficos da ultima década e avaliação da resposta dos Estados Unidos e da coligação de seus parceiros e questiona se a resposta foi apropriada ou sábia ou se os resultados foram, até o momento, contraproducentes e indicam a necessidade de um totalmente novo paradigma de segurança.O autor do relatório, o Professor Paul Rogers, diz: “Por ver os ataques como exigindo uma resposta militar importante - uma ‘guerra ao terror’ – atribuiu aos autores precisamente a atenção que eles buscavam e provou ser profundamente contra produtivo.” O relatório inclusive compara os objetivos originais de guerra das administrações Bush e Blair logo após os ataques e seus resultados atuais em termos de longevidade dos conflitos, os custos humanos, as implicações financeiras e os desenvolvimentos políticos.Rogers resume os maiores resultados da ‘guerra ao terror’ quando diz: “Uma curta guerra no Afeganistão logo mais entra na sua segunda década, sete anos de guerra no Iraque ainda está por resultar numa paz duradoura e o Paquistão continua profundamente instável. Enquanto isto, grupos fracamente ligados ao movimento al-Qaida fazem progresso em Iêmen, Nigéria, Argélia e Corno da África.” É mais uma concordância, e bastante importante, à idéia que defendemos aqui e, mais ainda, o impacto destes acontecimentos certamente serão sentidos por muitas décadas futuras tanto no Mashriq quanto o Maghrib árabes quanto no sul e centro asiático muçulmanos.Só se pode concordar também com Rogers quando aponta para um fato relevante que é o aumento significativo da influência do Irã na região e principalmente nos países palcos das ações estadunidenses: Afeganistão e Iraque e, nestes países, o Irã está livre para atuar. Rogers vai além ao apontar para aquilo que um aniversário não está representando em termos de oportunidade para reflexões honestas já que planejadores políticos e militares estão se arriscando a repetir os erros da última década e diz: “Uma avaliação abrangente das guerras no Iraque e Afeganistão é muito necessária em maior profundidade” do que a atual atitude dos Estados Unidos e Reino Unido para se conseguir “aumentar a cautela em resposta muito rápida em circunstâncias difíceis com o uso de força militar.”Dificilmente podem ser encontrados contestadores, em qualquer parte do mundo, na atualidade, às conclusões de Rogers quando diz: “Tornou-se cada vez mais claro na última década que os Estados Unidos e seus parceiros devem aprender com o evidente fracasso da ‘guerra ao terror’ passando a prestarem mais atenção às causas subjacentes aos conflitos, especialmente os fatores que motivem novos paramilitares a empreenderem ações extremas.”Noam Chomsky, linguista, filósofo, ativista político estadunidense, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, comentou sobre o 11/9 em artigo datado de 06/09/2011 intitulado Dangers of American Empire and Why the US Continues to be Bin Laden's Best Ally [Perigos do império estadunidense e porque os E.U.A. continuam sendo o melhor aliado de Bin Ladin], no qual aponta que “Inúmeros analistas observam que apesar de Bin Ladin finalmente ter sido morto, ele ganhou alguns grandes sucessos em sua guerra contra os Estados Unidos.”Continuando, Chomsky cita o jornalista especialista em Oriente Médio e Islã, Eric Margolis que escreveu: “Ele [Bin Ladin] repetidamente afirmou que a única forma de conduzir os Estados Unidos para fora do mundo islâmico e derrotar seu satrapismo é trazê-los para uma série de pequenas, mas dispendiosas guerras que finalmente irão à falência”. Segundo Chomsky, ”Fazendo sangrar os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama levou-os direto para a armadilha de Bin Ladin.” Chomsky prosseguiu com sua correta afirmação de que “um ataque maciço contra uma população muçulmana teria sido uma resposta às orações de Bin Ladin e seus associados e levaria os Estados Unidos e seus aliados a uma armadilha diabólica.” Foi por esta razão, aliada aos custos de mais uma frente de guerra, que fez com que os Estados Unidos fingissem não estar atuando na Líbia.Chomsky, após demonstrar que os Estados Unidos, com seus ataques ao mundo islâmico foram os melhores aliados de Bin Ladin, indaga se não havia alternativa e aponta aquela que seria a mais óbvia: o movimento Jihadi Islâmico, crítico ferrenho de Bin Ladin, poderia ter abandonado o movimento e minado todas as ações da al-Qaida e o crime contra a humanidade que foi cometido poderia ter sido tratado como crime com uma ação internacional para prender os responsáveis, mas como dissemos acima, os ataques já constavam dos planos até mesmo antes da posse de Bush filho e antes do 11/9 e sem ou com os ataques criminosos o que se queria mesmo era ocupar o Afeganistão e o Iraque e ousamos dizer: como passo inicial. Bin Ladin ainda viveu para ver um dos resultados das aventuras dos Estados Unidos e seus aliados nas guerras e interferências nos países árabes e muçulmanos que levaram diretamente para a crise econômica que começou em 2008 e só Allah sabe quando e se de fato terá solução.José Farhat é cientista político e diretor de relações nacionais e internacionais do Instituto da Cultura Árabe.Logo após o ataque às Torres Gêmeas, em 9 de setembro de 2001, e até há poucos anos depois, quem ousasse interromper um jogo de gamão ou a baforada de um narguilé, em qualquer café de Beirute ou Clube de árabes em São Paulo e perguntasse quem foi o autor do atentado, é provável que ouvisse uma quase unânime resposta: “C.I.A. e Mossad”! Escrevemos um relato intitulado Onze de Setembro Sete Anos Depois, em 11/09/11, dando conta desta linha de pensamento árabe e também muçulmano, por andarem em paralelo.
Hoje, no entanto, já não se atribui este ato terrorista às duas agências de inteligência e sim a seus reais autores: al-Qaida e seus pupilos. Alguma insistência naquela errônea versão ainda ocorre, tal como existem pessoas que ainda consideram uma farsa televisiva a chegada de Neil Alden Armstrong à lua e seu pronunciamento em nome da humanidade.
A grande maioria de árabes e muçulmanos nunca apoiou a al-Qaida e sobretudo o crime que cometeu em território estadunidense, salvo as desprezíveis exceções de sempre que se manifestaram em 2001. Boa parte destes segue atualmente a mesma linha traçada por Peter L. Bergen, em seu livro The Longest War: The Enduring Conflict Between America and Al-Qaeda [A mais longa guerra: O conflito duradouro entre América e al-Qaida] no qual é analisado o sentido do que ocorreu naquele dia nefasto, mas também as consequências daquela agressão desumana, entender a guerra no Afeganistão, a ocupação do Iraque, as relações perturbadas dos Estados Unidos com o Paquistão, as perspectivas do relacionamento entre árabes e muçulmanos com o chamado Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, às vezes ocultados pela couraça da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), as torturas cometidas e os programas de remessa às escondidas de prisioneiros a outros países para que fossem cruelmente interrogados e às vezes até eliminados e a caça e a morte de Bin Laden.
Seguindo Bergen, analista de segurança nacional da Rede CNN e diretor de estudos de segurança da New American Foundation que coletou dados junto a autores e organizações, fizemos o mesmo, salvo por uma única exceção, procuramos trazer para este estudo a opinião de não árabes e não muçulmanos. A bem da verdade, Bergen chegou a ser criticado pelo establishment estadunidense, à falta de outra desculpa, por não ter dado maiores detalhes sobre o Afeganistão.
Aquilo que árabes e muçulmanos, inclusive na Tríplice Fronteira de Brasil, Argentina e Paraguai, em todo o Brasil, em países árabes ou de maioria muçulmana indagam não é diferente daquilo que fazem os próprios cidadãos estadunidenses. Atualmente em sua grande maioria eles se impressionam: uma década depois do 11/9 os Estados Unidos continuam lutando no Afeganistão e ainda não saíram do Iraque (e apesar de acordo firmado com o governo iraquiano estão procurando encontrar um meio, qualquer um, para lá ficar), tudo apesar de não ter ocorrido qualquer ataque terrorista desde então. O espanto maior é que foi gasto mais de US$ 1 trilhão nos combates, milhares de estadunidenses foram mortos e não há dúvida que Tio Sam inspirou o surgimento de oposição odiosa por parte de árabes e muçulmanos, onde quer que se encontrem.
Cada árabe ou muçulmano lamenta a perda de centenas de milhares de vidas dos seus, tão inocentes quanto os cerca de três milhares de vítimas das Torres Gêmeas. É-lhes dolorido constatarem o que pode ser considerado uma discriminação entre vítimas civis inocentes: “as deles e as nossas”. O mundo ouviu as palavras de George W. Bush no dia do ataque e duas vezes depois e seus discursos foram pronunciados em alto e bom som, o suficiente para que árabes e muçulmanos ouvissem que a reação estadunidense seria uma cruzada. Lamentam eles também as agressões que se seguiram ao 11/9, por parte de Estados Unidos e seus aliados em terras árabes ou muçulmanas. Sentem profundamente o apoio que é dado a Israel e os abusos que este comete contra os palestinos que são tanto árabes quanto muçulmanos em sua maioria, mas também cristãos. A reação ao tratamento dado por Israel aos lugares santos do Cristianismo e do Islã não se limitam ao estado hebreu e sim abrangem os Estados Unidos e seus aliados. Ninguém pode negar que foram, em última instância, os inúmeros adiamentos da decisão de ingresso da Turquia na União Europeia, que teve sua origem nas campanhas contra o Islã, a razão para levar o estado turco a desistir de sua candidatura ao ingresso na organização. Isto apesar de o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mentiroso contumaz, dizer que era a favor da entrada do país de maioria muçulmana para o seio da organização europeia. Pode-se também considerar que a deterioração das relações entre Israel e Turquia tem em 11/9 suas origens remotas.
A própria criação do Instituto da Cultura Árabe no Brasil (Icarabe) tem indiretamente no episódio suas origens. Os ataques a Edward W. Saïd (1935-2003), palestino-estadunidense, teórico de literatura, professor de inglês e literatura comparada na Columbia University e defensor da causa palestina, recrudesceu com a implementação da “caça às bruxas” nos Estados Unidos após o 11/9. Saïd passou a ser atacado por sua origem e até ameaçada foi a sua cátedra na universidade. Os ataques repercutiram no Brasil e encorajaram a união de intelectuais em sua defesa. O apoio a Saïd foi ampliado para a causa palestina em particular e árabe em geral e à rica cultura árabe, o que consequentemente resultou na criação do Icarabe, que o tem como patrono.
Falamos do 11/9 e de algumas poucas de suas repercussões, mas não chegamos a definir o que é terrorismo, o motivo das cruzadas de Bush filho. Em artigo publicado em 02/09/2011, o professor de Ciência Política da Aligarth Muslim University, na Índia, M. Mohibul Haque publicou um artigo no Countercurrents.org intitulado Deconstruction of Discourse on Terrorism [Desconstrução discurso sobre terrorismo] no qual ele sublinha que o sentido do termo ‘terrorismo’, apesar de ser aquele que por mais longo tempo se discute em círculos acadêmicos e governamentais, tem “implicações perigosas [que] não são sentidas” e afirma ademais que “a ausência de uma definição objetiva de terrorismo é mais proposital do que acidental”. Haque acrescenta ainda: “a desonestidade da fraternidade acadêmica e o dúbio comportamento de governos nacionais são responsáveis por tais problemas”. Vindo para o nosso assunto, o professor da AMU chega diretamente ao âmago da questão ao afirmar: “Terrorismo é um ato político ou ideológico motivado por violência contra homens ou mulheres comuns. Ele pode ser cometido por indivíduo, grupo, organização ou estado. No entanto, infelizmente este discurso sobre terrorismo foi sequestrado por nações poderosas do mundo que nunca querem que seus atos de injustificável violência devam ser discutidos no contexto de terrorismo. Isto é muito evidente nos efeitos dos ataques terroristas de 11 de setembro contra os Estados Unidos. A assim chamada guerra global declarada contra o terror e que está sendo travada por Estados Unidos e um punhado de seus aliados tem tentado tapear que na presente circunstância o terrorismo é monopólio de não-estados. Assim, a matança de pessoas inocentes cidadãs de Afeganistão, Iraque, Somália e Kosovo por uma aliança imperialista não é absolutamente terrorismo.” Professor Haque conclui dizendo que “Terrorismo deve ser definido e determinado mais com base em atos cometidos que em atores envolvidos.”
Albert ‘Al’ Gore vice-presidente durante os oito anos de governo William ‘Bill’ Clinton, não é árabe e nem tampouco muçulmano, com sua insuspeita pena, escreveu um livro sob o título The Assault on Reason [O assalto à razão] no qual atacou George W. Bush dizendo que ele estava “fora de alcance da realidade” e ignorou “claros avisos” sobre a ameaça terrorista antes do 11/9 e que ele tornou os estadunidenses menos seguros “agitando vespeiros no Iraque” enquanto usava “a linguagem e a política do medo” a fim de “desviar a agenda pública sem atentar para a evidência, os fatos ou o interesse público”. Gore poderia até estar investindo contra Bush por razões eleitoreiras, o que é negado por todas as resenhas do livro às quais tive acesso, mas há um fato inegável a respeito do assunto. Bush não deu ouvidos aos “claros avisos” porque com ou sem o 11/9 seus planos eram outros e o ataque da al-Qaida serviram apenas de desculpa. Em artigo publicado em 15/09/2002, sob o título Planned Iraq 'Regime Change' Before Becoming President [Plano de ‘mudança de regime’ no Iraque antes de se tornar presidente], o jornalista Neil Mackay dá conta em artigo de 15/09/2002, que um resumo secreto de documento sobre a dominação global dos Estados Unidos revela que Bush filho e seu gabinete estavam planejando e premeditando atacar o Iraque a fim de assegurar uma ‘mudança de regime’ bem antes de quando este assumiu a presidência em janeiro de 2001. Quem revelou a existência do documento sobre a criação da ‘Global Pax Americana’ foi o jornal Sunday Herald que informa serem autores do resumo Richard ‘Dick’ Cheney (que se tornaria vice-presidente de Bush filho), Donald Rumsfeld (que seria nomeado secretário de defesa), Paul Wolfowitz (segundo de Rumsfeld), John ‘Jeb’ Bush (irmão de Bush filho e depois governador da Florida e que ajudaria o irmão a ser reeleito) e Lewis Libby (chefe de gabinete de Cheney). O documento original, sob o título de Rebuilding America’s Defense: Strategies, Forces And Resources For a New Century [Reconstruindo a defesa dos Estados Unidos: Estratégias, forças e recursos para um novo século] foi redigido em setembro de 2000 (um ano antes do 11/9) pelo neoconservador grupo chamado Project for the New American Century [Projeto para um novo século estadunidense]. Tanto isto é verdade que na reunião da cúpula governamental estadunidense, no dia dos acontecimentos do 11/9, ao saber do ocorrido Paul Wolfowitz gritou: “Foi Saddam Hussein, vamos atacar o Iraque!” e, em seguida, ao surgir a figura de Bin Ladin, decidiu-se pelo ataque ao Afeganistão em primeiro lugar.
Não precisa ser árabe ou muçulmano para começar desconfiando e depois ter certeza que tudo tinha sido planejado com antecedência e os ataques de 11/9 e suas vítimas foram tão somente usados e os países árabes e muçulmanos também. No documento Rebuilding America’s Defense (capítulo II Quatro missões essenciais - página 5) estão traçadas as metas: “A liderança mundial dos Estados Unidos e seu papel de garantidor da atual paz da grande potência, assenta na segurança do território estadunidense; na preservação de uma balança favorável de poder na Europa, no Oriente Médio e na região circunvizinha produtora de energia e Leste Asiático; e na estabilidade do sistema internacional de estados-nações relativo a terroristas, crime organizado e outros ‘não-estados’ atores.”
No dia 06/09/2011, por ocasião do décimo aniversário do 11/9 o britânico Oxford Research Group publicou um relatório sob o sugestivo título de A War Gone Badly Wrong – The War on Terror Ten Years On [Uma Guerra que seguiu muito errada – A Guerra contra o terror continua por dez anos] com reflexões sobre os erros catastróficos da ultima década e avaliação da resposta dos Estados Unidos e da coligação de seus parceiros e questiona se a resposta foi apropriada ou sábia ou se os resultados foram, até o momento, contraproducentes e indicam a necessidade de um totalmente novo paradigma de segurança.
O autor do relatório, o Professor Paul Rogers, diz: “Por ver os ataques como exigindo uma resposta militar importante - uma ‘guerra ao terror’ – atribuiu aos autores precisamente a atenção que eles buscavam e provou ser profundamente contra produtivo.” O relatório inclusive compara os objetivos originais de guerra das administrações Bush e Blair logo após os ataques e seus resultados atuais em termos de longevidade dos conflitos, os custos humanos, as implicações financeiras e os desenvolvimentos políticos.
Rogers resume os maiores resultados da ‘guerra ao terror’ quando diz: “Uma curta guerra no Afeganistão logo mais entra na sua segunda década, sete anos de guerra no Iraque ainda está por resultar numa paz duradoura e o Paquistão continua profundamente instável. Enquanto isto, grupos fracamente ligados ao movimento al-Qaida fazem progresso em Iêmen, Nigéria, Argélia e Corno da África.” É mais uma concordância, e bastante importante, à idéia que defendemos aqui e, mais ainda, o impacto destes acontecimentos certamente serão sentidos por muitas décadas futuras tanto no Mashriq quanto o Maghrib árabes quanto no sul e centro asiático muçulmanos.
Só se pode concordar também com Rogers quando aponta para um fato relevante que é o aumento significativo da influência do Irã na região e principalmente nos países palcos das ações estadunidenses: Afeganistão e Iraque e, nestes países, o Irã está livre para atuar.
Rogers vai além ao apontar para aquilo que um aniversário não está representando em termos de oportunidade para reflexões honestas já que planejadores políticos e militares estão se arriscando a repetir os erros da última década e diz: “Uma avaliação abrangente das guerras no Iraque e Afeganistão é muito necessária em maior profundidade” do que a atual atitude dos Estados Unidos e Reino Unido para se conseguir “aumentar a cautela em resposta muito rápida em circunstâncias difíceis com o uso de força militar.”
Dificilmente podem ser encontrados contestadores, em qualquer parte do mundo, na atualidade, às conclusões de Rogers quando diz: “Tornou-se cada vez mais claro na última década que os Estados Unidos e seus parceiros devem aprender com o evidente fracasso da ‘guerra ao terror’ passando a prestarem mais atenção às causas subjacentes aos conflitos, especialmente os fatores que motivem novos paramilitares a empreenderem ações extremas.
”Noam Chomsky, linguista, filósofo, ativista político estadunidense, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, comentou sobre o 11/9 em artigo datado de 06/09/2011 intitulado Dangers of American Empire and Why the US Continues to be Bin Laden's Best Ally [Perigos do império estadunidense e porque os E.U.A. continuam sendo o melhor aliado de Bin Ladin], no qual aponta que “Inúmeros analistas observam que apesar de Bin Ladin finalmente ter sido morto, ele ganhou alguns grandes sucessos em sua guerra contra os Estados Unidos.
”Continuando, Chomsky cita o jornalista especialista em Oriente Médio e Islã, Eric Margolis que escreveu: “Ele [Bin Ladin] repetidamente afirmou que a única forma de conduzir os Estados Unidos para fora do mundo islâmico e derrotar seu satrapismo é trazê-los para uma série de pequenas, mas dispendiosas guerras que finalmente irão à falência”.
Segundo Chomsky, ”Fazendo sangrar os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama levou-os direto para a armadilha de Bin Ladin.” Chomsky prosseguiu com sua correta afirmação de que “um ataque maciço contra uma população muçulmana teria sido uma resposta às orações de Bin Ladin e seus associados e levaria os Estados Unidos e seus aliados a uma armadilha diabólica.” Foi por esta razão, aliada aos custos de mais uma frente de guerra, que fez com que os Estados Unidos fingissem não estar atuando na Líbia.
Chomsky, após demonstrar que os Estados Unidos, com seus ataques ao mundo islâmico foram os melhores aliados de Bin Ladin, indaga se não havia alternativa e aponta aquela que seria a mais óbvia: o movimento Jihadi Islâmico, crítico ferrenho de Bin Laden, poderia ter abandonado o movimento e minado todas as ações da al-Qaida e o crime contra a humanidade que foi cometido poderia ter sido tratado como crime com uma ação internacional para prender os responsáveis, mas como dissemos acima, os ataques já constavam dos planos até mesmo antes da posse de Bush filho e antes do 11/9 e sem ou com os ataques criminosos o que se queria mesmo era ocupar o Afeganistão e o Iraque e ousamos dizer: como passo inicial.
Bin Laden ainda viveu para ver um dos resultados das aventuras dos Estados Unidos e seus aliados nas guerras e interferências nos países árabes e muçulmanos que levaram diretamente para a crise econômica que começou em 2008 e só Allah sabe quando e se de fato terá solução.José Farhat é cientista político e diretor de relações nacionais e internacionais do Instituto da Cultura Árabe.
José Farhat
Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É diretor de Relações Nacionais e Internacionais do Instituto da Cultura Árabe. http://josefarhat.wordpress.com
(Icarabe)
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Classe Média
Há trinta anos: o dia em que a classe média morreu, por Michael Moore
Artigo | 8 Agosto, 2011 - 00:22
Luta dos controladores de voo, Agosto de 1981 - Foto do site de Michael Moore De tempos em tempos, alguém com menos de 30 anos vem-me perguntar: “Quando tudo isso começou, a queda da América ladeira abaixo?”. Eles dizem que ouviram falar de um tempo em que o povo trabalhador podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com o rendimento de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). Um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas no Verão. Que muitos empregos eram sindicalizados, de empacotadores em supermercados ao homem cara que pintava a sua casa, e isso significava que não importava qual o seu trabalho, pois, por menos qualificado que fosse, dar-lhe-ia as garantias de uma reforma, aumentos ocasionais, seguro de saúde e alguém para defendê-lo se fosse tratado injustamente.
As pessoas jovens têm ouvido a respeito desse tempo mítico – só que não é mito, foi real. E quando eles perguntam, “quando tudo isso acabou?”, eu digo: terminou neste dia: 5 de Agosto de 1981.
A partir desta data, há 30 anos atrás, o Grande Negócio e a Direita decidiram “dar o golpe” – para ver se poderiam de facto destruir a classe média, e assim tornarem-se mais ricos. E eles se deram bem.
Em 5 de Agosto de 1981, o presidente Ronald Reagan atacou todos os membros do sindicato dos controladores de vôo [PATCO – sigla em inglês], que tinha desafiado a sua ordem de voltarem ao trabalho e declarou o seu sindicato ilegal. Eles estavam em greve há apenas dois dias.
Foi um movimento forte e audacioso. Ninguém jamais tinha tentado isso. O que o tornou ainda mais forte foi o facto do PATCO ter sido um dos dois únicos sindicatos que tinha apoiado Reagan para presidente! Isso gerou uma onda de pânico nos trabalhadores ao longo do país. Se ele fez isso com as pessoas que votaram nele, o que fará connosco?
Reagan foi apoiado por Wall Street na sua corrida para a Casa Branca e eles, juntamente com a direita cristã, queriam reestruturar a América e mudar a direção da tendência inaugurada pelo presidente Franklin D. Roosevelt – uma tendência concebida para tornar a vida melhor para o trabalhador comum. Os ricos odiavam pagar salários melhores e arcarem com os custos dos benefícios sociais. E eles odiavam ainda mais pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. A direita cristã odiava qualquer coisa que soasse como socialismo ou que defendesse o reconhecimento de minorias ou mulheres.
Reagan prometeu acabar com tudo. Assim, quando os controladores de tráfego aéreo entraram em greve, ele aproveitou o momento. Ao se livrar de todos eles e pôr o seu sindicato na ilegalidade, ele enviou uma clara e forte mensagem: os dias de todos com uma vida confortável de classe média acabaram. A América, a partir de agora, será comandada da seguinte maneira:
* Os super-ricos vão fazer muito, mas muito mais dinheiro e o resto de vocês vai-se digladiar pelas migalhas deixadas pelo caminho.
* Todos devem trabalhar! Mãe, Pai, os adolescentes, na casa! Pai, você trabalha num segundo emprego! Crianças, aqui estão as vossas chaves para vocês voltarem para casa sozinhas! Os vossos pais devem estar em casa na hora de pôr-vos a dormir.
* 50 milhões de vocês devem ficar sem seguro de saúde! E as seguradoras podem decidir a quem ajudar ou não.
* Os sindicatos são maus! Vocês não devem ser sindicalizados! Não precisam de advogados! Calem a boca e ponham-se a trabalhar! Não, não podem ir embora agora, ainda não terminámos. As vossas crianças podem fazer o seu próprio jantar.
* Você quer ir para a faculdade? Sem problemas – assine aqui e fique empenhado num banco pelos próximos 20 anos!
*O que é “aumento”? Volte ao trabalho e cale a boca!
E por aí vai. Mas Reagan não poderia ter levado tudo isso a cabo sozinho, em 1981. Ele teve uma grande ajuda: a AFL-CIO.
A maior central sindical dos EUA disse aos seus membros para furarem a greve dos controladores de tráfego aéreo e irem trabalhar. E foi só o que esses membros do sindicato fizeram. Pilotos sindicalizados, comissários de bordo, motoristas de camião, operadores de bagagens – todos eles furaram a greve e ajudaram a quebrá-la. E os membros do sindicato de todas as categorias furaram os piquetes ao voltarem a voar.
Reagan e Wall Street não podiam crer nos seus olhos! Centenas de milhares de trabalhadores e membros dos sindicatos a apoir a demissão de companheiros sindicalizados. Foi um presente de Natal em Agosto para as corporações da América.
E isso foi só o começo. Reagan e os Republicanos sabiam que poderiam fazer o que quisessem, e fizeram-no. Eles cortaram os impostos para os ricos. Tornaram a sua vida mais dura, caso quisesse abrir um sindicato no seu local de trabalho. Eliminaram normas de segurança do trabalho. Ignoraram as leis contra o monopólio e permitiram que milhares de empresas se fundissem ou fossem compradas e fechassem as portas. As corporações congelaram os salários e ameaçaram mudar de país se os trabalhadores não aceitassem receber menos e com menos benefícios. E quando os trabalhadores concordaram em trabalhar por menos, eles exportaram os empregos mesmo assim.
E a cada passo dado nesse caminho, a maioria dos americanos estavam juntos, apoiando-os. Houve pouca oposição ou contra-ataque. As “massas” não se levantaram para protegerem os seus empregos, as suas casas e escolas (as quais costumavam ser as melhores do mundo). Simplesmente aceitaram o seu destino e curvaram-se.
Eu pergunto-me sempre o que teria ocorrido se eles tivessem parado de voar em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Dê aos controladores de voo os seus empregos de volta ou paralisaremos o país”? Vocês sabem o que teria acontecido. A elite das corporações e o seu boy, Reagan, ter-se-iam dobrado.
Mas nós não fizemos isso. E assim, passo a passo, peça por peça, nos 30 anos seguintes aqueles que estiveram no poder destruíram a classe média no nosso país e, em troca, arruinaram o futuro da nossa juventude. Os salários permaneceram estagnados durante 30 anos. Dê uma olhadela nas estatísticas e poderá ver que todo o declínio que estamos a sofrer agora teve o seu início em 1981 (eis aqui uma pequena cena para ilustrar essa história, do meu filme1 mais recente).
Tudo isso começou neste dia, há 30 anos. Um dos dias mais obscuros na história dos EUA. E nós deixámos que isso nos ocorresse. Sim, eles tinham o dinheiro e os média e as corporações. Mas nós tínhamos 200 milhões de nós. Você já perguntou o que seria se 200 milhões tivessem-se enfurecido e quisessem o seu país, a sua vida, o seu emprego, o seu fim de semana, o seu tempo com as suas crianças de volta?
Nós todos simplesmente desistimos? O que estamos à espera? Esqueçam os 20% que apoiam o Tea Party – nós somos os outros 80%! Esse declínio só vai terminar quando exigirmos isso. E não por meio de uma petição online ou de uma twittada. Teremos de desligar as tevês e os computadores e os videogames e tomar as ruas (como o fizeram no Wisconsin). Alguns de vocês precisam de se lançar como candidatos nos locais onde vivem nas eleições do próximo ano. Precisamos exigir que os democratas tenham coragem e parem de receber dinheiro das corporações – ou saiam do caminho.
Quando será suficiente, o suficiente? O sonho da classe média não reaparecerá magicamente. O plano da Wall Street é claro: a América deve ser uma nação dos que têm e dos que nada têm. Isso está bem para vocês?
Por que não aproveitar hoje (05/08) para parar e pensar a respeito dos pequenos passos que vocês podem dar pela vossa vizinhança e no vosso local de trabalho, na vossa escola? Há algum outro dia melhor para começar a fazer isso, que não seja hoje?
Artigo de Michael Moore, publicado em michaelmoore.com, traduzido por Katarina Peixoto para Carta Maior.
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(Esquerda.net)
Artigo | 8 Agosto, 2011 - 00:22
Luta dos controladores de voo, Agosto de 1981 - Foto do site de Michael Moore De tempos em tempos, alguém com menos de 30 anos vem-me perguntar: “Quando tudo isso começou, a queda da América ladeira abaixo?”. Eles dizem que ouviram falar de um tempo em que o povo trabalhador podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com o rendimento de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). Um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas no Verão. Que muitos empregos eram sindicalizados, de empacotadores em supermercados ao homem cara que pintava a sua casa, e isso significava que não importava qual o seu trabalho, pois, por menos qualificado que fosse, dar-lhe-ia as garantias de uma reforma, aumentos ocasionais, seguro de saúde e alguém para defendê-lo se fosse tratado injustamente.
As pessoas jovens têm ouvido a respeito desse tempo mítico – só que não é mito, foi real. E quando eles perguntam, “quando tudo isso acabou?”, eu digo: terminou neste dia: 5 de Agosto de 1981.
A partir desta data, há 30 anos atrás, o Grande Negócio e a Direita decidiram “dar o golpe” – para ver se poderiam de facto destruir a classe média, e assim tornarem-se mais ricos. E eles se deram bem.
Em 5 de Agosto de 1981, o presidente Ronald Reagan atacou todos os membros do sindicato dos controladores de vôo [PATCO – sigla em inglês], que tinha desafiado a sua ordem de voltarem ao trabalho e declarou o seu sindicato ilegal. Eles estavam em greve há apenas dois dias.
Foi um movimento forte e audacioso. Ninguém jamais tinha tentado isso. O que o tornou ainda mais forte foi o facto do PATCO ter sido um dos dois únicos sindicatos que tinha apoiado Reagan para presidente! Isso gerou uma onda de pânico nos trabalhadores ao longo do país. Se ele fez isso com as pessoas que votaram nele, o que fará connosco?
Reagan foi apoiado por Wall Street na sua corrida para a Casa Branca e eles, juntamente com a direita cristã, queriam reestruturar a América e mudar a direção da tendência inaugurada pelo presidente Franklin D. Roosevelt – uma tendência concebida para tornar a vida melhor para o trabalhador comum. Os ricos odiavam pagar salários melhores e arcarem com os custos dos benefícios sociais. E eles odiavam ainda mais pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. A direita cristã odiava qualquer coisa que soasse como socialismo ou que defendesse o reconhecimento de minorias ou mulheres.
Reagan prometeu acabar com tudo. Assim, quando os controladores de tráfego aéreo entraram em greve, ele aproveitou o momento. Ao se livrar de todos eles e pôr o seu sindicato na ilegalidade, ele enviou uma clara e forte mensagem: os dias de todos com uma vida confortável de classe média acabaram. A América, a partir de agora, será comandada da seguinte maneira:
* Os super-ricos vão fazer muito, mas muito mais dinheiro e o resto de vocês vai-se digladiar pelas migalhas deixadas pelo caminho.
* Todos devem trabalhar! Mãe, Pai, os adolescentes, na casa! Pai, você trabalha num segundo emprego! Crianças, aqui estão as vossas chaves para vocês voltarem para casa sozinhas! Os vossos pais devem estar em casa na hora de pôr-vos a dormir.
* 50 milhões de vocês devem ficar sem seguro de saúde! E as seguradoras podem decidir a quem ajudar ou não.
* Os sindicatos são maus! Vocês não devem ser sindicalizados! Não precisam de advogados! Calem a boca e ponham-se a trabalhar! Não, não podem ir embora agora, ainda não terminámos. As vossas crianças podem fazer o seu próprio jantar.
* Você quer ir para a faculdade? Sem problemas – assine aqui e fique empenhado num banco pelos próximos 20 anos!
*O que é “aumento”? Volte ao trabalho e cale a boca!
E por aí vai. Mas Reagan não poderia ter levado tudo isso a cabo sozinho, em 1981. Ele teve uma grande ajuda: a AFL-CIO.
A maior central sindical dos EUA disse aos seus membros para furarem a greve dos controladores de tráfego aéreo e irem trabalhar. E foi só o que esses membros do sindicato fizeram. Pilotos sindicalizados, comissários de bordo, motoristas de camião, operadores de bagagens – todos eles furaram a greve e ajudaram a quebrá-la. E os membros do sindicato de todas as categorias furaram os piquetes ao voltarem a voar.
Reagan e Wall Street não podiam crer nos seus olhos! Centenas de milhares de trabalhadores e membros dos sindicatos a apoir a demissão de companheiros sindicalizados. Foi um presente de Natal em Agosto para as corporações da América.
E isso foi só o começo. Reagan e os Republicanos sabiam que poderiam fazer o que quisessem, e fizeram-no. Eles cortaram os impostos para os ricos. Tornaram a sua vida mais dura, caso quisesse abrir um sindicato no seu local de trabalho. Eliminaram normas de segurança do trabalho. Ignoraram as leis contra o monopólio e permitiram que milhares de empresas se fundissem ou fossem compradas e fechassem as portas. As corporações congelaram os salários e ameaçaram mudar de país se os trabalhadores não aceitassem receber menos e com menos benefícios. E quando os trabalhadores concordaram em trabalhar por menos, eles exportaram os empregos mesmo assim.
E a cada passo dado nesse caminho, a maioria dos americanos estavam juntos, apoiando-os. Houve pouca oposição ou contra-ataque. As “massas” não se levantaram para protegerem os seus empregos, as suas casas e escolas (as quais costumavam ser as melhores do mundo). Simplesmente aceitaram o seu destino e curvaram-se.
Eu pergunto-me sempre o que teria ocorrido se eles tivessem parado de voar em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Dê aos controladores de voo os seus empregos de volta ou paralisaremos o país”? Vocês sabem o que teria acontecido. A elite das corporações e o seu boy, Reagan, ter-se-iam dobrado.
Mas nós não fizemos isso. E assim, passo a passo, peça por peça, nos 30 anos seguintes aqueles que estiveram no poder destruíram a classe média no nosso país e, em troca, arruinaram o futuro da nossa juventude. Os salários permaneceram estagnados durante 30 anos. Dê uma olhadela nas estatísticas e poderá ver que todo o declínio que estamos a sofrer agora teve o seu início em 1981 (eis aqui uma pequena cena para ilustrar essa história, do meu filme1 mais recente).
Tudo isso começou neste dia, há 30 anos. Um dos dias mais obscuros na história dos EUA. E nós deixámos que isso nos ocorresse. Sim, eles tinham o dinheiro e os média e as corporações. Mas nós tínhamos 200 milhões de nós. Você já perguntou o que seria se 200 milhões tivessem-se enfurecido e quisessem o seu país, a sua vida, o seu emprego, o seu fim de semana, o seu tempo com as suas crianças de volta?
Nós todos simplesmente desistimos? O que estamos à espera? Esqueçam os 20% que apoiam o Tea Party – nós somos os outros 80%! Esse declínio só vai terminar quando exigirmos isso. E não por meio de uma petição online ou de uma twittada. Teremos de desligar as tevês e os computadores e os videogames e tomar as ruas (como o fizeram no Wisconsin). Alguns de vocês precisam de se lançar como candidatos nos locais onde vivem nas eleições do próximo ano. Precisamos exigir que os democratas tenham coragem e parem de receber dinheiro das corporações – ou saiam do caminho.
Quando será suficiente, o suficiente? O sonho da classe média não reaparecerá magicamente. O plano da Wall Street é claro: a América deve ser uma nação dos que têm e dos que nada têm. Isso está bem para vocês?
Por que não aproveitar hoje (05/08) para parar e pensar a respeito dos pequenos passos que vocês podem dar pela vossa vizinhança e no vosso local de trabalho, na vossa escola? Há algum outro dia melhor para começar a fazer isso, que não seja hoje?
Artigo de Michael Moore, publicado em michaelmoore.com, traduzido por Katarina Peixoto para Carta Maior.
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terça-feira, 4 de outubro de 2011
Pensamentando II
Blog da Boitempo Aqui você pode encontrar informações dos livros e eventos realizados pela editora Boitempo. E, principalmente, pode interagir e ajudar na construção da editora que ousou ter uma cara e conquistou seu espaço produzindo livros de qualidadePular para o conteúdoInícioSobre o blog ? A fantasia do novo e a terrível formação permanenteO meu roubo inesquecível
Posted on 04/10/2011
by boitempoeditorial| Deixar um comentário
Por Urariano Mota.
Eu também já fui ladrão, confesso.
Eu e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais cedo, e terminávamos por volta das 20 horas. Melhor dizendo: fazíamos um breve intervalo para o outro dia. Isso, é claro, quando não demonstrávamos maiores provas de amor ao ofício estendendo a jornada até as 22 horas. Ainda assim, não chegávamos a ganhar o pão com o suor do próprio rosto, porque: a) o que ganhávamos não dava para o pão acompanhado de qualquer proteína; b) não suávamos, porque o trabalho era sob o frescor do ar-condicionado. Mas alguma coisa ganhávamos, como veremos.
Nada direi sobre Hermann, um descendente de empresário sueco, um descendente bastardo já se vê, um sujeito deserdado, que estendia olhos mui nobres para o que os seus dedos finos não alcançavam. A saber, tudo: cervejas, cigarros, e, luxo dos luxos, almoço, janta e ceia. Nada direi. Importa saber que em uma fatídica noite Hermann estendeu sua cobiça para uma direção. Acompanhei-o, não bem por solidariedade, mas por experiência. Os seus olhos sempre se dirigiam para o que eu também ambicionava. E vejo e vi então o grupo dos quatro gerentes que entrava em nossa última sala, próxima à cozinha (mirem como o diabo nos queria). Ali se encontrava o refrigerador, que de ordinário abrigava somente água, nada mais que água. De sede, portanto, não morreríamos.
Entram os gerentes. À frente, como sempre, o gerente geral, obeso, bon vivant, cheio de ideias positivas sobre o crescimento material das pessoas. Ele era a tese, antítese, síntese e realização dos princípios positivos. Atrás, o vice-gerente, fiel discípulo. E depois, em ordem cadenciada de passos e postos, os outros em escala descendente de hierarquia e salários. Como apareciam todos de ternos, com o paletó aberto a mostrar seus ventres redondos, dir-se-ia uma fila de pinguins a caminhar para a neve – o refrigerador ao lado de nós. Mas isso, para aquele instante, não é novo.
O novo, o que os olhos de Hermann identificam com precisão e necessidade, são as caixas que eles portam, objetos oblongos, cujo conteúdo pelo cheiro e forma adivinhamos. Olhamos e baixamos a vista: são caixas de sorvete, preciosos sorvetes de frutas tropicais. Um quilo de sabor infernal em cada uma. Cajá, mangaba, caju… Se um gênio nos perguntasse àquela hora das 21 horas, em 1981:
- Homem, o que desejas? Vida eterna, tesouro, ser amado pela maja de Goya….
Nós responderíamos, sem dúvida e sem vacilar:
- Primeiro o sorvete, gênio. Depois, conversamos com mais calma e firmeza.
Um dos gerentes, o mais afoito e arrogante, passa de volta e assim nos saúda, como sempre nos saudava:
- Meninos… – Com esse tratamento ele apenas nos põe no lugar de subalternos, ainda que sejamos mais velhos que ele. – Meninos…
E passa, com o seu largo traseiro. Deixa atrás de si, além da cauda que parece arrastar, um cheiro de cu, álcool e perfume estragado pelo álcool da noite e banquetes. Saem. Batem a porta. O banco mergulha em silêncio, aquele mesmo silêncio que antecede a madrugada e permite a maior liberdade aos ratos. Eu e Hermann nem nos olhamos mais. Enquanto somamos valores de cheques, enquanto amarramos papéis em lotes, não nos sai da cabeça a tentação dos frutos proibidos. Então eu me levanto e vou olhar, somente olhar e mais nada, a cara, somente ver a cara dos sorvetes. E pelo nome na tampa, percebo que um deles é de cajá. Ora, ver é permitido. Ver não dói. Somente ver, Senhor. Ora. Com artes de arrombador de cofres eu retiro a tampa da caixa. E vejo a cor amarela.
Ver dói. Dá um sabor, um aroma, um travo de recordação na língua. O dicionário Aurélio informa que o cajá é fruto da cajazeira, que por sua vez é árvore de produzir uma drupa elipsóide amarela, aromática, muito sucosa e fortemente azeda, própria para refrescos e sorvetes. O que o dicionário não ensina é que o sorvete de cajá na altura das nove da noite, em dois bancários com fome, é qualquer coisa mais que irresistível. E com aquela raiva que nos possuía, com aquele ódio de classe acumulado pelo “meninos”, eu lhes digo, o cajá tem uma força maior que a do sexo para marujos perdidos. E por isso, eu, o almirante sem esquadra, comando um rápido assalto e abordagem.
- Hermann – eu oriento o deserdado – Hermann, se a gente fizer assim, eles não vão notar.
E com isso dou o exemplo. Com uma colher faço raspagens, retiro lâminas da superfície do cajá, rebaixo o tamanho delicadamente (tão delicado quanto um homem com fome assalta uma presa), de forma e de formas a deixar o volume do sorvete bem distribuído, em uma mesma altura.
Olhem, mirem e escutem, eu não quero incriminar outra pessoa. Mas eu acredito até hoje que Hermann foi o culpado. Ele acabou com o sorvete! Ele, sem seguir a minha orientação, fodeu todo o cajá! O animal esvaziou todo o conteúdo suculento próprio para refrescos e sorvetes. Disse-me ele depois que não poderia seguir as minhas instruções de calma, “vá com calma, Hermann, atenção, cuidado”, enquanto aquela drupa amarela, melhor que as majas de Goya, era devorada em profundas horizontais por este orientador. O certo é que restou a caixa vazia, que tampamos atenciosos, e com recomendações de estima fizemos retornar ao mesmo lugar e temperatura. Amada, dorme em paz, queríamos dizer.
Chega o outro dia. Mais uma vez entra a fila dos pinguins, em ordem.
- Buon giorno – saúda-nos o gerente geral. Os demais pinguins tentam repetir o italiano do chefe:
- Bom giorno, bom giorno…
Eles se dirigem, como um dia antes, à neve do refrigerador. Eu e Hermann de cabeças baixas, extremamente concentrados em nossas somas e subtrações de valores. Temos que bater o balanço, ora, por favor, não nos distraiam do nosso ofício. Em torno de nós, melhor dizendo, em nossas costas ouvimos o silêncio, aquele silêncio do cinema dos filmes western, o mesmo silêncio que vem antes do ataque dos índios. Súbito, um grito. É agora. Eu não posso nem olhar Hermann. Ele também não me vê. Mergulhamos a cara nos relatórios de conta corrente.
- Quem foi que roubou o meu sorvete? Quem foi?!
Se no mundo explodisse a bomba fundamental, não a ouviríamos. O ventre que entrevemos, por baixo dos olhos, pelo cheiro com que arrasta a cauda, adivinhamos. É do yuppie, que nos trata por meninos. O cajá era dele. Os inimigos se percebem sem palavras, porque ele se dirige a mim, com toda assistência dos pinguins em torno. Juro por Deus que tive então a minha última hora de coragem. Fitei-o com a cara mais cínica e despudorada e repleta de surpresa que um ator pode ter. O meu ser, a minha expressão, pelo menos eu me esforcei para isso, quis dizer:
- A quê o jovem se refere? Na verdade, eu não sei nem se existe no mundo algo parecido com cajá.
As evidências nos apontavam como autores do crime. Eu e Hermann éramos os últimos a sair. Talvez também os de pior condição social e financeira. Em vez do cherchez la femme, e a fêmea era aquela maravilhosa polpa amarela, os sinais anunciavam: busquem os fodidos. E por isso o pinguim mais jovem nos recrimina, olhando ora para mim, ora para Hermann:
- Quem rouba sorvete é ladrão. Quem rouba sorvete, assalta um banco!
Isso foi o mais duro de ouvir. Se houvesse uma catilinária de classe a nosso favor, e se essa catilinária não nos empurrasse para o olho da rua…. baixamos a cabeça e engolimos.
Muitos anos depois, um belo dia soubemos: aquele gerente, aquele pinguim mais jovem se transformou em um criminoso procurado pela polícia federal, porque tomou conta, com excessivo zelo, de valores de clientes. Ou seja, aplicações em papéis, em bolsa de valores, que investidores lhe confiavam, deixaram de ser feitas nos dias e períodos solicitados. Pior: assim como a fome sobre a caixa do sorvete de cajá, que começou pela superfície e foi até o fundo, o nosso Catão havia comido toda a aplicação, e por isso fugiu para lugares menos perigosos.
Não sei se existe moral nesta breve história, mas se houver, passa por esta recomendação: se não for seu, não comece jamais a comer um sorvete de cajá. É irresistível.
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
(De um emeio recebido)
Posted on 04/10/2011
by boitempoeditorial| Deixar um comentário
Por Urariano Mota.
Eu também já fui ladrão, confesso.
Eu e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais cedo, e terminávamos por volta das 20 horas. Melhor dizendo: fazíamos um breve intervalo para o outro dia. Isso, é claro, quando não demonstrávamos maiores provas de amor ao ofício estendendo a jornada até as 22 horas. Ainda assim, não chegávamos a ganhar o pão com o suor do próprio rosto, porque: a) o que ganhávamos não dava para o pão acompanhado de qualquer proteína; b) não suávamos, porque o trabalho era sob o frescor do ar-condicionado. Mas alguma coisa ganhávamos, como veremos.
Nada direi sobre Hermann, um descendente de empresário sueco, um descendente bastardo já se vê, um sujeito deserdado, que estendia olhos mui nobres para o que os seus dedos finos não alcançavam. A saber, tudo: cervejas, cigarros, e, luxo dos luxos, almoço, janta e ceia. Nada direi. Importa saber que em uma fatídica noite Hermann estendeu sua cobiça para uma direção. Acompanhei-o, não bem por solidariedade, mas por experiência. Os seus olhos sempre se dirigiam para o que eu também ambicionava. E vejo e vi então o grupo dos quatro gerentes que entrava em nossa última sala, próxima à cozinha (mirem como o diabo nos queria). Ali se encontrava o refrigerador, que de ordinário abrigava somente água, nada mais que água. De sede, portanto, não morreríamos.
Entram os gerentes. À frente, como sempre, o gerente geral, obeso, bon vivant, cheio de ideias positivas sobre o crescimento material das pessoas. Ele era a tese, antítese, síntese e realização dos princípios positivos. Atrás, o vice-gerente, fiel discípulo. E depois, em ordem cadenciada de passos e postos, os outros em escala descendente de hierarquia e salários. Como apareciam todos de ternos, com o paletó aberto a mostrar seus ventres redondos, dir-se-ia uma fila de pinguins a caminhar para a neve – o refrigerador ao lado de nós. Mas isso, para aquele instante, não é novo.
O novo, o que os olhos de Hermann identificam com precisão e necessidade, são as caixas que eles portam, objetos oblongos, cujo conteúdo pelo cheiro e forma adivinhamos. Olhamos e baixamos a vista: são caixas de sorvete, preciosos sorvetes de frutas tropicais. Um quilo de sabor infernal em cada uma. Cajá, mangaba, caju… Se um gênio nos perguntasse àquela hora das 21 horas, em 1981:
- Homem, o que desejas? Vida eterna, tesouro, ser amado pela maja de Goya….
Nós responderíamos, sem dúvida e sem vacilar:
- Primeiro o sorvete, gênio. Depois, conversamos com mais calma e firmeza.
Um dos gerentes, o mais afoito e arrogante, passa de volta e assim nos saúda, como sempre nos saudava:
- Meninos… – Com esse tratamento ele apenas nos põe no lugar de subalternos, ainda que sejamos mais velhos que ele. – Meninos…
E passa, com o seu largo traseiro. Deixa atrás de si, além da cauda que parece arrastar, um cheiro de cu, álcool e perfume estragado pelo álcool da noite e banquetes. Saem. Batem a porta. O banco mergulha em silêncio, aquele mesmo silêncio que antecede a madrugada e permite a maior liberdade aos ratos. Eu e Hermann nem nos olhamos mais. Enquanto somamos valores de cheques, enquanto amarramos papéis em lotes, não nos sai da cabeça a tentação dos frutos proibidos. Então eu me levanto e vou olhar, somente olhar e mais nada, a cara, somente ver a cara dos sorvetes. E pelo nome na tampa, percebo que um deles é de cajá. Ora, ver é permitido. Ver não dói. Somente ver, Senhor. Ora. Com artes de arrombador de cofres eu retiro a tampa da caixa. E vejo a cor amarela.
Ver dói. Dá um sabor, um aroma, um travo de recordação na língua. O dicionário Aurélio informa que o cajá é fruto da cajazeira, que por sua vez é árvore de produzir uma drupa elipsóide amarela, aromática, muito sucosa e fortemente azeda, própria para refrescos e sorvetes. O que o dicionário não ensina é que o sorvete de cajá na altura das nove da noite, em dois bancários com fome, é qualquer coisa mais que irresistível. E com aquela raiva que nos possuía, com aquele ódio de classe acumulado pelo “meninos”, eu lhes digo, o cajá tem uma força maior que a do sexo para marujos perdidos. E por isso, eu, o almirante sem esquadra, comando um rápido assalto e abordagem.
- Hermann – eu oriento o deserdado – Hermann, se a gente fizer assim, eles não vão notar.
E com isso dou o exemplo. Com uma colher faço raspagens, retiro lâminas da superfície do cajá, rebaixo o tamanho delicadamente (tão delicado quanto um homem com fome assalta uma presa), de forma e de formas a deixar o volume do sorvete bem distribuído, em uma mesma altura.
Olhem, mirem e escutem, eu não quero incriminar outra pessoa. Mas eu acredito até hoje que Hermann foi o culpado. Ele acabou com o sorvete! Ele, sem seguir a minha orientação, fodeu todo o cajá! O animal esvaziou todo o conteúdo suculento próprio para refrescos e sorvetes. Disse-me ele depois que não poderia seguir as minhas instruções de calma, “vá com calma, Hermann, atenção, cuidado”, enquanto aquela drupa amarela, melhor que as majas de Goya, era devorada em profundas horizontais por este orientador. O certo é que restou a caixa vazia, que tampamos atenciosos, e com recomendações de estima fizemos retornar ao mesmo lugar e temperatura. Amada, dorme em paz, queríamos dizer.
Chega o outro dia. Mais uma vez entra a fila dos pinguins, em ordem.
- Buon giorno – saúda-nos o gerente geral. Os demais pinguins tentam repetir o italiano do chefe:
- Bom giorno, bom giorno…
Eles se dirigem, como um dia antes, à neve do refrigerador. Eu e Hermann de cabeças baixas, extremamente concentrados em nossas somas e subtrações de valores. Temos que bater o balanço, ora, por favor, não nos distraiam do nosso ofício. Em torno de nós, melhor dizendo, em nossas costas ouvimos o silêncio, aquele silêncio do cinema dos filmes western, o mesmo silêncio que vem antes do ataque dos índios. Súbito, um grito. É agora. Eu não posso nem olhar Hermann. Ele também não me vê. Mergulhamos a cara nos relatórios de conta corrente.
- Quem foi que roubou o meu sorvete? Quem foi?!
Se no mundo explodisse a bomba fundamental, não a ouviríamos. O ventre que entrevemos, por baixo dos olhos, pelo cheiro com que arrasta a cauda, adivinhamos. É do yuppie, que nos trata por meninos. O cajá era dele. Os inimigos se percebem sem palavras, porque ele se dirige a mim, com toda assistência dos pinguins em torno. Juro por Deus que tive então a minha última hora de coragem. Fitei-o com a cara mais cínica e despudorada e repleta de surpresa que um ator pode ter. O meu ser, a minha expressão, pelo menos eu me esforcei para isso, quis dizer:
- A quê o jovem se refere? Na verdade, eu não sei nem se existe no mundo algo parecido com cajá.
As evidências nos apontavam como autores do crime. Eu e Hermann éramos os últimos a sair. Talvez também os de pior condição social e financeira. Em vez do cherchez la femme, e a fêmea era aquela maravilhosa polpa amarela, os sinais anunciavam: busquem os fodidos. E por isso o pinguim mais jovem nos recrimina, olhando ora para mim, ora para Hermann:
- Quem rouba sorvete é ladrão. Quem rouba sorvete, assalta um banco!
Isso foi o mais duro de ouvir. Se houvesse uma catilinária de classe a nosso favor, e se essa catilinária não nos empurrasse para o olho da rua…. baixamos a cabeça e engolimos.
Muitos anos depois, um belo dia soubemos: aquele gerente, aquele pinguim mais jovem se transformou em um criminoso procurado pela polícia federal, porque tomou conta, com excessivo zelo, de valores de clientes. Ou seja, aplicações em papéis, em bolsa de valores, que investidores lhe confiavam, deixaram de ser feitas nos dias e períodos solicitados. Pior: assim como a fome sobre a caixa do sorvete de cajá, que começou pela superfície e foi até o fundo, o nosso Catão havia comido toda a aplicação, e por isso fugiu para lugares menos perigosos.
Não sei se existe moral nesta breve história, mas se houver, passa por esta recomendação: se não for seu, não comece jamais a comer um sorvete de cajá. É irresistível.
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
(De um emeio recebido)
Pensamentando
Há trinta anos: o dia em que a classe média morreu, por Michael Moore
Artigo | 8 Agosto, 2011 - 00:22
Luta dos controladores de voo, Agosto de 1981 - Foto do site de Michael Moore De tempos em tempos, alguém com menos de 30 anos vem-me perguntar: “Quando tudo isso começou, a queda da América ladeira abaixo?”. Eles dizem que ouviram falar de um tempo em que o povo trabalhador podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com o rendimento de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). Um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas no Verão. Que muitos empregos eram sindicalizados, de empacotadores em supermercados ao homem cara que pintava a sua casa, e isso significava que não importava qual o seu trabalho, pois, por menos qualificado que fosse, dar-lhe-ia as garantias de uma reforma, aumentos ocasionais, seguro de saúde e alguém para defendê-lo se fosse tratado injustamente.
As pessoas jovens têm ouvido a respeito desse tempo mítico – só que não é mito, foi real. E quando eles perguntam, “quando tudo isso acabou?”, eu digo: terminou neste dia: 5 de Agosto de 1981.
A partir desta data, há 30 anos atrás, o Grande Negócio e a Direita decidiram “dar o golpe” – para ver se poderiam de facto destruir a classe média, e assim tornarem-se mais ricos. E eles se deram bem.
Em 5 de Agosto de 1981, o presidente Ronald Reagan atacou todos os membros do sindicato dos controladores de vôo [PATCO – sigla em inglês], que tinha desafiado a sua ordem de voltarem ao trabalho e declarou o seu sindicato ilegal. Eles estavam em greve há apenas dois dias.
Foi um movimento forte e audacioso. Ninguém jamais tinha tentado isso. O que o tornou ainda mais forte foi o facto do PATCO ter sido um dos dois únicos sindicatos que tinha apoiado Reagan para presidente! Isso gerou uma onda de pânico nos trabalhadores ao longo do país. Se ele fez isso com as pessoas que votaram nele, o que fará connosco?
Reagan foi apoiado por Wall Street na sua corrida para a Casa Branca e eles, juntamente com a direita cristã, queriam reestruturar a América e mudar a direção da tendência inaugurada pelo presidente Franklin D. Roosevelt – uma tendência concebida para tornar a vida melhor para o trabalhador comum. Os ricos odiavam pagar salários melhores e arcarem com os custos dos benefícios sociais. E eles odiavam ainda mais pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. A direita cristã odiava qualquer coisa que soasse como socialismo ou que defendesse o reconhecimento de minorias ou mulheres.
Reagan prometeu acabar com tudo. Assim, quando os controladores de tráfego aéreo entraram em greve, ele aproveitou o momento. Ao se livrar de todos eles e pôr o seu sindicato na ilegalidade, ele enviou uma clara e forte mensagem: os dias de todos com uma vida confortável de classe média acabaram. A América, a partir de agora, será comandada da seguinte maneira:
* Os super-ricos vão fazer muito, mas muito mais dinheiro e o resto de vocês vai-se digladiar pelas migalhas deixadas pelo caminho.
* Todos devem trabalhar! Mãe, Pai, os adolescentes, na casa! Pai, você trabalha num segundo emprego! Crianças, aqui estão as vossas chaves para vocês voltarem para casa sozinhas! Os vossos pais devem estar em casa na hora de pôr-vos a dormir.
* 50 milhões de vocês devem ficar sem seguro de saúde! E as seguradoras podem decidir a quem ajudar ou não.
* Os sindicatos são maus! Vocês não devem ser sindicalizados! Não precisam de advogados! Calem a boca e ponham-se a trabalhar! Não, não podem ir embora agora, ainda não terminámos. As vossas crianças podem fazer o seu próprio jantar.
* Você quer ir para a faculdade? Sem problemas – assine aqui e fique empenhado num banco pelos próximos 20 anos!
*O que é “aumento”? Volte ao trabalho e cale a boca!
E por aí vai. Mas Reagan não poderia ter levado tudo isso a cabo sozinho, em 1981. Ele teve uma grande ajuda: a AFL-CIO.
A maior central sindical dos EUA disse aos seus membros para furarem a greve dos controladores de tráfego aéreo e irem trabalhar. E foi só o que esses membros do sindicato fizeram. Pilotos sindicalizados, comissários de bordo, motoristas de camião, operadores de bagagens – todos eles furaram a greve e ajudaram a quebrá-la. E os membros do sindicato de todas as categorias furaram os piquetes ao voltarem a voar.
Reagan e Wall Street não podiam crer nos seus olhos! Centenas de milhares de trabalhadores e membros dos sindicatos a apoir a demissão de companheiros sindicalizados. Foi um presente de Natal em Agosto para as corporações da América.
E isso foi só o começo. Reagan e os Republicanos sabiam que poderiam fazer o que quisessem, e fizeram-no. Eles cortaram os impostos para os ricos. Tornaram a sua vida mais dura, caso quisesse abrir um sindicato no seu local de trabalho. Eliminaram normas de segurança do trabalho. Ignoraram as leis contra o monopólio e permitiram que milhares de empresas se fundissem ou fossem compradas e fechassem as portas. As corporações congelaram os salários e ameaçaram mudar de país se os trabalhadores não aceitassem receber menos e com menos benefícios. E quando os trabalhadores concordaram em trabalhar por menos, eles exportaram os empregos mesmo assim.
E a cada passo dado nesse caminho, a maioria dos americanos estavam juntos, apoiando-os. Houve pouca oposição ou contra-ataque. As “massas” não se levantaram para protegerem os seus empregos, as suas casas e escolas (as quais costumavam ser as melhores do mundo). Simplesmente aceitaram o seu destino e curvaram-se.
Eu pergunto-me sempre o que teria ocorrido se eles tivessem parado de voar em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Dê aos controladores de voo os seus empregos de volta ou paralisaremos o país”? Vocês sabem o que teria acontecido. A elite das corporações e o seu boy, Reagan, ter-se-iam dobrado.
Mas nós não fizemos isso. E assim, passo a passo, peça por peça, nos 30 anos seguintes aqueles que estiveram no poder destruíram a classe média no nosso país e, em troca, arruinaram o futuro da nossa juventude. Os salários permaneceram estagnados durante 30 anos. Dê uma olhadela nas estatísticas e poderá ver que todo o declínio que estamos a sofrer agora teve o seu início em 1981 (eis aqui uma pequena cena para ilustrar essa história, do meu filme1 mais recente).
Tudo isso começou neste dia, há 30 anos. Um dos dias mais obscuros na história dos EUA. E nós deixámos que isso nos ocorresse. Sim, eles tinham o dinheiro e os média e as corporações. Mas nós tínhamos 200 milhões de nós. Você já perguntou o que seria se 200 milhões tivessem-se enfurecido e quisessem o seu país, a sua vida, o seu emprego, o seu fim de semana, o seu tempo com as suas crianças de volta?
Nós todos simplesmente desistimos? O que estamos à espera? Esqueçam os 20% que apoiam o Tea Party – nós somos os outros 80%! Esse declínio só vai terminar quando exigirmos isso. E não por meio de uma petição online ou de uma twittada. Teremos de desligar as tevês e os computadores e os videogames e tomar as ruas (como o fizeram no Wisconsin). Alguns de vocês precisam de se lançar como candidatos nos locais onde vivem nas eleições do próximo ano. Precisamos exigir que os democratas tenham coragem e parem de receber dinheiro das corporações – ou saiam do caminho.
Quando será suficiente, o suficiente? O sonho da classe média não reaparecerá magicamente. O plano da Wall Street é claro: a América deve ser uma nação dos que têm e dos que nada têm. Isso está bem para vocês?
Por que não aproveitar hoje (05/08) para parar e pensar a respeito dos pequenos passos que vocês podem dar pela vossa vizinhança e no vosso local de trabalho, na vossa escola? Há algum outro dia melhor para começar a fazer isso, que não seja hoje?
Artigo de Michael Moore, publicado em michaelmoore.com, traduzido por Katarina Peixoto para Carta Maior.
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(Esquerda.net)
Artigo | 8 Agosto, 2011 - 00:22
Luta dos controladores de voo, Agosto de 1981 - Foto do site de Michael Moore De tempos em tempos, alguém com menos de 30 anos vem-me perguntar: “Quando tudo isso começou, a queda da América ladeira abaixo?”. Eles dizem que ouviram falar de um tempo em que o povo trabalhador podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com o rendimento de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). Um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas no Verão. Que muitos empregos eram sindicalizados, de empacotadores em supermercados ao homem cara que pintava a sua casa, e isso significava que não importava qual o seu trabalho, pois, por menos qualificado que fosse, dar-lhe-ia as garantias de uma reforma, aumentos ocasionais, seguro de saúde e alguém para defendê-lo se fosse tratado injustamente.
As pessoas jovens têm ouvido a respeito desse tempo mítico – só que não é mito, foi real. E quando eles perguntam, “quando tudo isso acabou?”, eu digo: terminou neste dia: 5 de Agosto de 1981.
A partir desta data, há 30 anos atrás, o Grande Negócio e a Direita decidiram “dar o golpe” – para ver se poderiam de facto destruir a classe média, e assim tornarem-se mais ricos. E eles se deram bem.
Em 5 de Agosto de 1981, o presidente Ronald Reagan atacou todos os membros do sindicato dos controladores de vôo [PATCO – sigla em inglês], que tinha desafiado a sua ordem de voltarem ao trabalho e declarou o seu sindicato ilegal. Eles estavam em greve há apenas dois dias.
Foi um movimento forte e audacioso. Ninguém jamais tinha tentado isso. O que o tornou ainda mais forte foi o facto do PATCO ter sido um dos dois únicos sindicatos que tinha apoiado Reagan para presidente! Isso gerou uma onda de pânico nos trabalhadores ao longo do país. Se ele fez isso com as pessoas que votaram nele, o que fará connosco?
Reagan foi apoiado por Wall Street na sua corrida para a Casa Branca e eles, juntamente com a direita cristã, queriam reestruturar a América e mudar a direção da tendência inaugurada pelo presidente Franklin D. Roosevelt – uma tendência concebida para tornar a vida melhor para o trabalhador comum. Os ricos odiavam pagar salários melhores e arcarem com os custos dos benefícios sociais. E eles odiavam ainda mais pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. A direita cristã odiava qualquer coisa que soasse como socialismo ou que defendesse o reconhecimento de minorias ou mulheres.
Reagan prometeu acabar com tudo. Assim, quando os controladores de tráfego aéreo entraram em greve, ele aproveitou o momento. Ao se livrar de todos eles e pôr o seu sindicato na ilegalidade, ele enviou uma clara e forte mensagem: os dias de todos com uma vida confortável de classe média acabaram. A América, a partir de agora, será comandada da seguinte maneira:
* Os super-ricos vão fazer muito, mas muito mais dinheiro e o resto de vocês vai-se digladiar pelas migalhas deixadas pelo caminho.
* Todos devem trabalhar! Mãe, Pai, os adolescentes, na casa! Pai, você trabalha num segundo emprego! Crianças, aqui estão as vossas chaves para vocês voltarem para casa sozinhas! Os vossos pais devem estar em casa na hora de pôr-vos a dormir.
* 50 milhões de vocês devem ficar sem seguro de saúde! E as seguradoras podem decidir a quem ajudar ou não.
* Os sindicatos são maus! Vocês não devem ser sindicalizados! Não precisam de advogados! Calem a boca e ponham-se a trabalhar! Não, não podem ir embora agora, ainda não terminámos. As vossas crianças podem fazer o seu próprio jantar.
* Você quer ir para a faculdade? Sem problemas – assine aqui e fique empenhado num banco pelos próximos 20 anos!
*O que é “aumento”? Volte ao trabalho e cale a boca!
E por aí vai. Mas Reagan não poderia ter levado tudo isso a cabo sozinho, em 1981. Ele teve uma grande ajuda: a AFL-CIO.
A maior central sindical dos EUA disse aos seus membros para furarem a greve dos controladores de tráfego aéreo e irem trabalhar. E foi só o que esses membros do sindicato fizeram. Pilotos sindicalizados, comissários de bordo, motoristas de camião, operadores de bagagens – todos eles furaram a greve e ajudaram a quebrá-la. E os membros do sindicato de todas as categorias furaram os piquetes ao voltarem a voar.
Reagan e Wall Street não podiam crer nos seus olhos! Centenas de milhares de trabalhadores e membros dos sindicatos a apoir a demissão de companheiros sindicalizados. Foi um presente de Natal em Agosto para as corporações da América.
E isso foi só o começo. Reagan e os Republicanos sabiam que poderiam fazer o que quisessem, e fizeram-no. Eles cortaram os impostos para os ricos. Tornaram a sua vida mais dura, caso quisesse abrir um sindicato no seu local de trabalho. Eliminaram normas de segurança do trabalho. Ignoraram as leis contra o monopólio e permitiram que milhares de empresas se fundissem ou fossem compradas e fechassem as portas. As corporações congelaram os salários e ameaçaram mudar de país se os trabalhadores não aceitassem receber menos e com menos benefícios. E quando os trabalhadores concordaram em trabalhar por menos, eles exportaram os empregos mesmo assim.
E a cada passo dado nesse caminho, a maioria dos americanos estavam juntos, apoiando-os. Houve pouca oposição ou contra-ataque. As “massas” não se levantaram para protegerem os seus empregos, as suas casas e escolas (as quais costumavam ser as melhores do mundo). Simplesmente aceitaram o seu destino e curvaram-se.
Eu pergunto-me sempre o que teria ocorrido se eles tivessem parado de voar em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Dê aos controladores de voo os seus empregos de volta ou paralisaremos o país”? Vocês sabem o que teria acontecido. A elite das corporações e o seu boy, Reagan, ter-se-iam dobrado.
Mas nós não fizemos isso. E assim, passo a passo, peça por peça, nos 30 anos seguintes aqueles que estiveram no poder destruíram a classe média no nosso país e, em troca, arruinaram o futuro da nossa juventude. Os salários permaneceram estagnados durante 30 anos. Dê uma olhadela nas estatísticas e poderá ver que todo o declínio que estamos a sofrer agora teve o seu início em 1981 (eis aqui uma pequena cena para ilustrar essa história, do meu filme1 mais recente).
Tudo isso começou neste dia, há 30 anos. Um dos dias mais obscuros na história dos EUA. E nós deixámos que isso nos ocorresse. Sim, eles tinham o dinheiro e os média e as corporações. Mas nós tínhamos 200 milhões de nós. Você já perguntou o que seria se 200 milhões tivessem-se enfurecido e quisessem o seu país, a sua vida, o seu emprego, o seu fim de semana, o seu tempo com as suas crianças de volta?
Nós todos simplesmente desistimos? O que estamos à espera? Esqueçam os 20% que apoiam o Tea Party – nós somos os outros 80%! Esse declínio só vai terminar quando exigirmos isso. E não por meio de uma petição online ou de uma twittada. Teremos de desligar as tevês e os computadores e os videogames e tomar as ruas (como o fizeram no Wisconsin). Alguns de vocês precisam de se lançar como candidatos nos locais onde vivem nas eleições do próximo ano. Precisamos exigir que os democratas tenham coragem e parem de receber dinheiro das corporações – ou saiam do caminho.
Quando será suficiente, o suficiente? O sonho da classe média não reaparecerá magicamente. O plano da Wall Street é claro: a América deve ser uma nação dos que têm e dos que nada têm. Isso está bem para vocês?
Por que não aproveitar hoje (05/08) para parar e pensar a respeito dos pequenos passos que vocês podem dar pela vossa vizinhança e no vosso local de trabalho, na vossa escola? Há algum outro dia melhor para começar a fazer isso, que não seja hoje?
Artigo de Michael Moore, publicado em michaelmoore.com, traduzido por Katarina Peixoto para Carta Maior.
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(Esquerda.net)
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Solução ou armadilha
Escrito por Luiz Eça
Qui, 29 de Setembro de 2011
O Ocidente acaba de fazer na ONU aquilo que sempre fez em séculos de relações com os povos árabes: trapaça.
Apresentou uma proposta que, ao mesmo tempo, salva Israel da condenação mundial, Barack Obama de perder totalmente a confiança dos árabes e os três grandes europeus (Reino Unido, França e Alemanha) de perderem face junto a seus eleitores e a governos do Oriente Médio com quem têm, ou esperam ter, bons negócios.
Só os palestinos é que saem perdendo, nesta maquiavélica urdidura do expert em tirar castanhas do fogo que é Sarkozy, Mas, vamos e venhamos, os palestinos não votam nas eleições americanas, pesam pouco nas européias (via emigrantes), não têm petróleo e nem são amigos de Rupert Murdoch, Berlusconi, Fox e outros grandes da mídia internacional...
Uma nova intifada, multidões árabes furiosas, aumento do terrorismo, passeatas de jovens nos EUA e na Europa, não são grande ameaça. Para isso, os EUA, Israel e as grandes potências européias estão equipadas com armas tão avançadas que só de ouvir sua descrição já causa pavor.
A proposta de Sarkozy foi assumida pelo quarteto ONU, EUA, Europa e Rússia, criado para solucionar o impasse palestino. Ela estabelece negociações entre as partes, com um ano de prazo para se chegar à criação do Estado palestino. Foi saudada como uma solução salomônica para o impasse que divide a ONU.
Impasse porque enquanto cerca de 180 países (entre 193) querem que a ONU reconheça a Palestina, os EUA prometem vetar no Conselho de Segurança. E com isso, suprema ironia, a posição de quase o mundo inteiro valerá menos do que a posição de um único país. Em outras palavras: a democracia, na prática, vai ser passada pra trás. Ficará para o terreno fácil da retórica.
‘Um contra o mundo’, até parece o título de um filme de um épico de Hollywood. Talvez com Charlton Heston e Vincent Price no papel de Sarkozy. O fim desse filme não deve ser dos melhores. Na certa, os palestinos, acabarão tendo de voltar pra casa de cabeça baixa e mãos vazias.
E Obama? Com que cara ficará? Não sairá mal junto a seu eleitorado e financiadores judeus. Terá argumentos fortes para enfrentar as acusações republicanas de que ele estaria traindo Israel. E para conquistar muitos votos e dólares desse segmento.
Mas, não é só de eleições que vivem os presidentes americanos (embora, para eles, costume ser o fundamental). No presente caso, o apoio à causa de Israel também terá seus lados desconfortáveis. Se acontecer, a Arábia Saudita – preciosa e petrolífera aliada - ameaça mudar para uma postura independente; o Egito e a Tunísia, onde os EUA derramam dólares para conquistar líderes democráticos, serão perdidos; a Turquia poderá aproximar-se do Irã; os líderes palestinos moderados serão superados pelos radicais; centenas, senão milhares de jovens muçulmanos, farão filas para entrar nos movimentos terroristas; a imagem americana que, em todo o mundo, está entre ruim e péssima, tenderá muito mais para segunda alternativa.
Foi para salvar o governo Obama (pelo menos parcialmente) de todas estas tragédias que Sarkozy, também para melhorar sua imagem não muito boa na própria França e no mundo muçulmano, apresentou sua proposta. Que, por tabela, beneficia Cameron, rejeitado nas últimas pesquisas junto ao povo inglês, que também se mostrava, em sua maioria, favorável (53% x 38%) ao reconhecimento do Estado palestino.
Todos os membros do quarteto de peacemakers toparam a idéia do engenhoso Sarkozy. Obama e a Comunidade Européia aplaudiram de pé. A ONU e a Rússia, pelo menos, não se opuseram.
Netanyahu, pressuroso, concordou logo. Lógico, sua política é adiar decisões o mais possível, até não haver mais territórios palestinos a serem negociados. E, como o plano Sarkozy não previa o reconhecimento obrigatório da Palestina pela ONU, se não houvesse acordos entre as partes, o sonho palestino não se realizaria nem em fins de 2012. A luta pelo reconhecimento do Estado palestino teria de ser reiniciada e rediscutida na reunião da ONU, somente em setembro de 2013, quando então ninguém sabe o que poderia acontecer. Quem sabe, outra proposta dilatória.
Abatido, sem forças, o moderado Abbas, presidente da Autoridade Palestina, cedeu. Mas, exigiu o óbvio. Para se iniciarem as negociações, nada de novos assentamentos. De fato, se a idéia era negociar a entrega à Palestina dos assentamentos judaicos em seu território, como continuar construindo mais assentamentos?
Interromper os assentamentos seria uma concessão. Pequena se considerarmos o quanto a proposta de Sarkozy era vantajosa para Israel. Mas Netanyahu disse não. Não é hábito de Israel fazer concessões, mesmo que favoráveis a seus bons amigos de Washington. É o que assegura o próprio Robert Gates, Secretário da Defesa na era Bush. Ele afirmou ao National Security Council Principals Comittee que o governo de Israel é um “aliado ingrato”, ao qual “os EUA dão tudo, sem receber nada em troca”.
E por que o fariam? Netanyahu sabe que não precisa atender aos EUA – nem um mínimo - para conseguir que os americanos façam o que Israel quiser.
No caso presente, ele não vê porque dar uma colher de chá a Obama, parando os assentamentos com o fim de viabilizar a proposta de Sarkozy, tão importante para os EUA.
Chova ou faça sol, Washington e seus followers europeus, de qualquer jeito, irão votar contra a Palestina. E para mostrar que seu “não” é pra valer, o governo Netanyahu acaba de autorizar a construção de mais 1.100 casas na parte árabe de Jerusalém. Protestos gerais no Ocidente por verem sua saída fechada.
Hillary Clinton considerou a ação israelense “contrária a nossos esforços para reassumir negociações diretas entre as partes”. Jay Carney, Secretário de Imprensa de Obama, disse que o governo estava “profundamente desapontado”. Para a Chefe de Política Externa da Comunidade Européia, Catherine Ashton, a decisão israelense “precisaria ser revertida”.
E a ONU, através do seu coordenador especial para o processo de paz no Oriente Médio, Robert Serry, foi enfática: “Os projetos dos assentamentos são contra a lei internacional e destroem a retomada das negociações em busca da solução dos dois Estados para o conflito”.
Por enquanto, tudo em vão: 1.100 novos assentamentos estão a caminho, com o apoio entusiástico da direita israelense, ora no poder. Alguns dos seus principais líderes, os presidentes do Likud (o partido do governo) e dos partidos Shas e Habayit Hayeudi, mais o líder da União Nacional, acham que o governo deve fazer algo mais contra os árabes do que apenas continuar assentando colonos israelenses em suas terras.
Eles mandaram uma carta apelando a Netanyahu para que imponha sanções à Autoridade Palestina por seu atrevimento em recorrer à ONU. Querem a anexação oficial de todos os assentamentos na Cisjordânia ao Estado de Israel, o aceleramento da construção de assentamentos e a proibição de qualquer construção palestina nas terras sob controle do Exército de Israel.
Netanyahu está longe de ver com maus olhos tais proposições. Não vamos esquecer que, não faz muito tempo, o premier israelense andou declarando diversas vezes que toda Samaria e Judeia (ou seja, a Cisjordânia) pertencem ao povo judeu.
No entanto, atualmente, Netanyahu parece visualizar a idéia de que, no futuro mais remoto possível, (ele ou algum sucessor) poderá admitir uma Palestina independente.
Claro, desenhada por mãos sionistas de extrema-direita e empurradas goela abaixo dos palestinos, então, esgotados por dezenas e dezenas de anos de lutas inglórias e artimanhas diplomáticas.
Nessa perspectiva, a proposta dilatória de Sarkozy seria perfeitamente adequada. Além do que está sendo impulsionada por pressões nervosas dos EUA e dos três grandes europeus. Não é que elas assustem o governo de Israel, mas atendê-las certamente lhe trará prazerosas compensações.
Pensando assim, Netanyahu até que poderá aceitar um abrandamento da proposta original de Sarkozy. Talvez tornar a interrupção dos assentamentos praticamente inócua, excluindo os processos já iniciados, ainda que na fase de indicação das áreas a serem utilizadas. E, é claro, todos os previstos para qualquer parte de Jerusalém.
Não seria nada fácil convencer os árabes. Se não fosse possível, restaria a Obama & friends, usando seus vastos recursos midiáticos, espalharem pelo mundo que eles fizeram de tudo, mas nada conseguiram devido à intransigência árabe.
Como se vê, o desfecho do caso do reconhecimento palestino depende de muitos “ses”.
Um happy end para o pedido palestino pela ONU não está à vista. Há grandes chances de dar certo a armadilha, feita para salvar a face dos grandes do Ocidente e deixar os palestinos de mãos e esperanças vazias.
Claro, pode não acontecer. Basta Netanyahu reafirmar seu “não” à paralisação dos assentamentos. Ou Abbas recusar possíveis novas jogadas que o engenhoso Sarkozy, ou algum dos seus parceiros, criarem para driblar o direito dos palestinos de terem um Estado.
Findo o evento, a ONU, mais uma vez sairá desmoralizada. E aos palestinos, tendo as portas fechadas para suas justas reivindicações, o que lhes restará fazer?
O Oriente Médio em chamas é uma triste visão que não pode ser descartada.
Luiz Eça é jornalista.
Website: www.olharomundo.com.br
(Correio da Cidadania)
Escrito por Luiz Eça
Qui, 29 de Setembro de 2011
O Ocidente acaba de fazer na ONU aquilo que sempre fez em séculos de relações com os povos árabes: trapaça.
Apresentou uma proposta que, ao mesmo tempo, salva Israel da condenação mundial, Barack Obama de perder totalmente a confiança dos árabes e os três grandes europeus (Reino Unido, França e Alemanha) de perderem face junto a seus eleitores e a governos do Oriente Médio com quem têm, ou esperam ter, bons negócios.
Só os palestinos é que saem perdendo, nesta maquiavélica urdidura do expert em tirar castanhas do fogo que é Sarkozy, Mas, vamos e venhamos, os palestinos não votam nas eleições americanas, pesam pouco nas européias (via emigrantes), não têm petróleo e nem são amigos de Rupert Murdoch, Berlusconi, Fox e outros grandes da mídia internacional...
Uma nova intifada, multidões árabes furiosas, aumento do terrorismo, passeatas de jovens nos EUA e na Europa, não são grande ameaça. Para isso, os EUA, Israel e as grandes potências européias estão equipadas com armas tão avançadas que só de ouvir sua descrição já causa pavor.
A proposta de Sarkozy foi assumida pelo quarteto ONU, EUA, Europa e Rússia, criado para solucionar o impasse palestino. Ela estabelece negociações entre as partes, com um ano de prazo para se chegar à criação do Estado palestino. Foi saudada como uma solução salomônica para o impasse que divide a ONU.
Impasse porque enquanto cerca de 180 países (entre 193) querem que a ONU reconheça a Palestina, os EUA prometem vetar no Conselho de Segurança. E com isso, suprema ironia, a posição de quase o mundo inteiro valerá menos do que a posição de um único país. Em outras palavras: a democracia, na prática, vai ser passada pra trás. Ficará para o terreno fácil da retórica.
‘Um contra o mundo’, até parece o título de um filme de um épico de Hollywood. Talvez com Charlton Heston e Vincent Price no papel de Sarkozy. O fim desse filme não deve ser dos melhores. Na certa, os palestinos, acabarão tendo de voltar pra casa de cabeça baixa e mãos vazias.
E Obama? Com que cara ficará? Não sairá mal junto a seu eleitorado e financiadores judeus. Terá argumentos fortes para enfrentar as acusações republicanas de que ele estaria traindo Israel. E para conquistar muitos votos e dólares desse segmento.
Mas, não é só de eleições que vivem os presidentes americanos (embora, para eles, costume ser o fundamental). No presente caso, o apoio à causa de Israel também terá seus lados desconfortáveis. Se acontecer, a Arábia Saudita – preciosa e petrolífera aliada - ameaça mudar para uma postura independente; o Egito e a Tunísia, onde os EUA derramam dólares para conquistar líderes democráticos, serão perdidos; a Turquia poderá aproximar-se do Irã; os líderes palestinos moderados serão superados pelos radicais; centenas, senão milhares de jovens muçulmanos, farão filas para entrar nos movimentos terroristas; a imagem americana que, em todo o mundo, está entre ruim e péssima, tenderá muito mais para segunda alternativa.
Foi para salvar o governo Obama (pelo menos parcialmente) de todas estas tragédias que Sarkozy, também para melhorar sua imagem não muito boa na própria França e no mundo muçulmano, apresentou sua proposta. Que, por tabela, beneficia Cameron, rejeitado nas últimas pesquisas junto ao povo inglês, que também se mostrava, em sua maioria, favorável (53% x 38%) ao reconhecimento do Estado palestino.
Todos os membros do quarteto de peacemakers toparam a idéia do engenhoso Sarkozy. Obama e a Comunidade Européia aplaudiram de pé. A ONU e a Rússia, pelo menos, não se opuseram.
Netanyahu, pressuroso, concordou logo. Lógico, sua política é adiar decisões o mais possível, até não haver mais territórios palestinos a serem negociados. E, como o plano Sarkozy não previa o reconhecimento obrigatório da Palestina pela ONU, se não houvesse acordos entre as partes, o sonho palestino não se realizaria nem em fins de 2012. A luta pelo reconhecimento do Estado palestino teria de ser reiniciada e rediscutida na reunião da ONU, somente em setembro de 2013, quando então ninguém sabe o que poderia acontecer. Quem sabe, outra proposta dilatória.
Abatido, sem forças, o moderado Abbas, presidente da Autoridade Palestina, cedeu. Mas, exigiu o óbvio. Para se iniciarem as negociações, nada de novos assentamentos. De fato, se a idéia era negociar a entrega à Palestina dos assentamentos judaicos em seu território, como continuar construindo mais assentamentos?
Interromper os assentamentos seria uma concessão. Pequena se considerarmos o quanto a proposta de Sarkozy era vantajosa para Israel. Mas Netanyahu disse não. Não é hábito de Israel fazer concessões, mesmo que favoráveis a seus bons amigos de Washington. É o que assegura o próprio Robert Gates, Secretário da Defesa na era Bush. Ele afirmou ao National Security Council Principals Comittee que o governo de Israel é um “aliado ingrato”, ao qual “os EUA dão tudo, sem receber nada em troca”.
E por que o fariam? Netanyahu sabe que não precisa atender aos EUA – nem um mínimo - para conseguir que os americanos façam o que Israel quiser.
No caso presente, ele não vê porque dar uma colher de chá a Obama, parando os assentamentos com o fim de viabilizar a proposta de Sarkozy, tão importante para os EUA.
Chova ou faça sol, Washington e seus followers europeus, de qualquer jeito, irão votar contra a Palestina. E para mostrar que seu “não” é pra valer, o governo Netanyahu acaba de autorizar a construção de mais 1.100 casas na parte árabe de Jerusalém. Protestos gerais no Ocidente por verem sua saída fechada.
Hillary Clinton considerou a ação israelense “contrária a nossos esforços para reassumir negociações diretas entre as partes”. Jay Carney, Secretário de Imprensa de Obama, disse que o governo estava “profundamente desapontado”. Para a Chefe de Política Externa da Comunidade Européia, Catherine Ashton, a decisão israelense “precisaria ser revertida”.
E a ONU, através do seu coordenador especial para o processo de paz no Oriente Médio, Robert Serry, foi enfática: “Os projetos dos assentamentos são contra a lei internacional e destroem a retomada das negociações em busca da solução dos dois Estados para o conflito”.
Por enquanto, tudo em vão: 1.100 novos assentamentos estão a caminho, com o apoio entusiástico da direita israelense, ora no poder. Alguns dos seus principais líderes, os presidentes do Likud (o partido do governo) e dos partidos Shas e Habayit Hayeudi, mais o líder da União Nacional, acham que o governo deve fazer algo mais contra os árabes do que apenas continuar assentando colonos israelenses em suas terras.
Eles mandaram uma carta apelando a Netanyahu para que imponha sanções à Autoridade Palestina por seu atrevimento em recorrer à ONU. Querem a anexação oficial de todos os assentamentos na Cisjordânia ao Estado de Israel, o aceleramento da construção de assentamentos e a proibição de qualquer construção palestina nas terras sob controle do Exército de Israel.
Netanyahu está longe de ver com maus olhos tais proposições. Não vamos esquecer que, não faz muito tempo, o premier israelense andou declarando diversas vezes que toda Samaria e Judeia (ou seja, a Cisjordânia) pertencem ao povo judeu.
No entanto, atualmente, Netanyahu parece visualizar a idéia de que, no futuro mais remoto possível, (ele ou algum sucessor) poderá admitir uma Palestina independente.
Claro, desenhada por mãos sionistas de extrema-direita e empurradas goela abaixo dos palestinos, então, esgotados por dezenas e dezenas de anos de lutas inglórias e artimanhas diplomáticas.
Nessa perspectiva, a proposta dilatória de Sarkozy seria perfeitamente adequada. Além do que está sendo impulsionada por pressões nervosas dos EUA e dos três grandes europeus. Não é que elas assustem o governo de Israel, mas atendê-las certamente lhe trará prazerosas compensações.
Pensando assim, Netanyahu até que poderá aceitar um abrandamento da proposta original de Sarkozy. Talvez tornar a interrupção dos assentamentos praticamente inócua, excluindo os processos já iniciados, ainda que na fase de indicação das áreas a serem utilizadas. E, é claro, todos os previstos para qualquer parte de Jerusalém.
Não seria nada fácil convencer os árabes. Se não fosse possível, restaria a Obama & friends, usando seus vastos recursos midiáticos, espalharem pelo mundo que eles fizeram de tudo, mas nada conseguiram devido à intransigência árabe.
Como se vê, o desfecho do caso do reconhecimento palestino depende de muitos “ses”.
Um happy end para o pedido palestino pela ONU não está à vista. Há grandes chances de dar certo a armadilha, feita para salvar a face dos grandes do Ocidente e deixar os palestinos de mãos e esperanças vazias.
Claro, pode não acontecer. Basta Netanyahu reafirmar seu “não” à paralisação dos assentamentos. Ou Abbas recusar possíveis novas jogadas que o engenhoso Sarkozy, ou algum dos seus parceiros, criarem para driblar o direito dos palestinos de terem um Estado.
Findo o evento, a ONU, mais uma vez sairá desmoralizada. E aos palestinos, tendo as portas fechadas para suas justas reivindicações, o que lhes restará fazer?
O Oriente Médio em chamas é uma triste visão que não pode ser descartada.
Luiz Eça é jornalista.
Website: www.olharomundo.com.br
(Correio da Cidadania)
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Internacionalismo
A LUTA ARMADA DO POVO COLOMBIANO É TAMBÉM NOSSA LUTA
O caráter internacionalista do conflito armado colombiano
Anncol
Durante os oito anos do governo narco-paramilitar de Álvaro Uribe Vélez (o 82º capo das drogas na lista da Defense Intelligence Agency (DIA), do próprio Pentágono), este dedicou todas as suas energias em tentar acabar com a insurreição guerrilheira comunista das FARC-Exército do Povo e “domesticar” (como um simples problema interno) o conflito social, político e armado, tratado-o com uma ótica reducionista, como se se tratasse de uma expressão delinquencial e ligado à suposta “luta contra o terrorismo”.
Em outras palavras, o “bom regime”, com seu “pobre Estado” sendo atacado por “forças terroristas”, devia se defender do “inimigo interno”, inclusive cometendo crimes.
Enquanto esse discurso era “assumido” pela opinião pública, graças a “jornalistas” a serviço do narco-paramilitarismo, como José Obdulio Gaviria (primo-irmão do capo Pablo Escobar Gaviria) e Ernesto Yamhure, o governo, com um aparato policial de inteligência bem “ajustado” interceptou ilegalmente os telefones de muitos organismos internacionais, que eram os olhos do que é conhecido como “comunidade internacional”, olhos esses que observavam “de perto” o conflito armado colombiano.
Nem o representante da ONU se salvou dos “grampos” (chuzadas). Outros organismos internacionais sofreram a mesma experiência, incluindo outro tipo de guerra suja, mais sutil, mas efetiva, como a coação, intimidações ou ameaças veladas, impedindo-lhes de entrar em certas regiões da Colômbia e asfixiando-os até tornar a situação inviável para eles para, em seguida, “convidá-los a partir” por falta de condições de segurança para realizar seu trabalho investigativo.
Lembremos que a Colômbia é um dos países mais observados pela ONU, que mantém cinco relatores especiais. E, quando estes chegam ao país, o governo procura fazer com que não tenham acesso à informação sobre o verdadeiro terrorismo: o Terrorismo de Estado. São impedidos de visitarem as regiões onde ocorreram os massacres, fazendo com que não tenham acesso a testemunhas, enfim, que não possam documentar as práticas de Terrorismo de Estado.
Estes relatores ficam em Bogotá e só vêem imagens Power Point oficiais com os dados enganosos da versão oficial do conflito. Isso também acontece com algumas ONGs internacionais e com alguns jornalistas, que armam novelões a partir de seu hotel em Bogotá.
Uribe botou para correr todo mundo, inclusive os mediadores internacionais de países amigos da Colômbia, que foram taxados, segundo a cartilha oficial, como colaboradores do terrorismo. Liquidada toda possibilidade de mediação, isolado o conflito do mundo, Uribe se dedicou a isolar a própria Colômbia do mundo, ficando com seu único aliado, seu amo e patrão norte-americano. Brigou com a Venezuela e inclusive muitas vezes tentou iniciar uma agressão armada contra a república irmã. Não duvidou um instante em ordenar o ataque ao Equador, pisoteando todo o direito internacional e todos os tratados internacionais que o próprio Estado colombiano assinou.
Com o atual presidente Santos (ex ministro da defesa de Uribe responsável pelo ataque ilegal ao Equador, que matou o Secretário de Relações Internacionais das FARC-Exército do Povo, cmte Raúl Reyes) as coisas continuam com o mesmo conteúdo, embora suas manifestações públicas tenham mudando. Passamos de uma linguagem mordaz de “coronel fazendeiro” à etiqueta do country club e dos alfaiates ingleses. Mas ambos são os mesmos “encarnados e esculpidos”. Com roupagens diferentes.
Santos continua procurando esconder o conflito colombiano, indo mais além: acabou conseguindo neutralizar o próprio presidente Chávez (que havia reconhecido oficialmente o caráter legítimo e beligerante das FARC-Exército do Povo em 2008), neutralização essa que havia iniciado com Uribe com a chantagem das “provas” obtidas dos famosos “computadores atômicos” (confiscados ilegalmente no ataque ao Equador, “provas” julgadas ilegais e sem validez alguma pela própria Corte Suprema da Colômbia).
Tão mafioso e chantagista o Estado colombiano que o atual inquilino da Casa de Nariño (sede da Presidência da República), Juan Manuel “Chuck” Santos, conseguiu infiltrar (sem uma reação do Brasil e demais países? Por quê?) a própria UNASUL com a senhora María Emma, neutralizando a “liderança” da Venezuela, intimidando-a e obrigando-a a mudar alguns discursos anteriores.
Com essa política internacional bem tramada pelo regime colombiano, contando com as inconsistências e vacilações ideológicas de Chávez (pressionado por quem?), “Chucky” Santos acabou legitimando o golpe de Estado em Honduras, levando esse país de volta ao seio da OEA (esse obsoleto ministério das neo-colônias ianques), de onde tinha sido expulso depois do golpe de 2009 contra o Presidente Constitucional Manuel Zelaya, ressuscitando um cadáver e colocando-o de novo nas mãos de Obama e, de passagem, legitimando um presidente golpista. “Três coelhos com uma única cajadada!”
Enquanto isso ocorre, Santos instrumentaliza a suposta boa amizade com Chávez para continuar expandindo sua “operação condor” nativa, estendendo a repressão e o terrorismo de Estado além fronteiras colombianas.
Foi nesse contexto e dinâmica que o nosso diretor, Joaquín Pérez Becerra, foi seqüestrado na Venezuela e entregue aos aparatos terroristas do Estado colombiano.
Santos se jacta dissimuladamente com muita ironia e em privado por ter conseguido “dobrar a munheca” do ingênuo Chávez. E, para completar, sua ministra de relações exteriores, Holguín, está “encantada” com o da Venezuela, Nicolás Maduro, que está se curvando aos encantos da beleza colombiana, deixando de lado o que se joga no xadrez político com uma oligarquia criminosa e mafiosa como a colombiana.
A neutralização de Chávez implica em vários perigos para o processo político venezuelano, especialmente quando Chávez se deixa rodear de tantos incompetentes e ineptos como Maduro e como Andrés Izarra, ministro das comunicações, embora este não seja propriamente o tema destas reflexões.
Continuemos: escondido e isolado o conflito armado colombiano, a oligarquia do país se sente desobrigada de certos compromissos assumidos internacionalmente e projeta para o mundo a imagem de democracia madura, apta para o investimento estrangeiro (inclusive brasileiro). E essa “confiança investidora” se traduz em uma entrega total de nosso patrimônio ao capital monopolista internacional. A elite econômica oligárquica procura isolar (esconder) o conflito armado interno ao mesmo tempo em que amplia seus contatos e relações econômicas e políticas para legitimar seu projeto hegemônico de economia de mercado dependente.
Diante disso tudo, a tarefa dos colombianos que estamos comprometidos com a saída política para o conflito, é ler o mapa mundi e não perder de vista a perspectiva e a contextualização internacional em torno da solução política para o conflito colombiano.
Continuar com essa visão simplista e provinciana do conflito não ajuda em nada, ao contrário, facilita o trabalho do regime oligárquico.
É necessário contextualizar internacionalmente o conflito armado colombiano por várias e simples razões:
1. As potências capitalistas mundial mantêm uma luta sangrenta pelo controle das matérias primas do terceiro mundo, particularmente da América Latina.
2. Na divisão internacional do trabalho pelo capital monopolista, países de “capitalismo tardio” e periférico como a Colômbia, Brasil e outros, foram designados para cumprir o papel de provedores de matérias primas (petróleo, esmeraldas, aço, minério de ferro, aço, alumínio, cobre, ouro, banana, café, soja, carne, flores, madeiras de lei, etc.;) sem valor agregado, dada a dependência tecnológica de nossos países.
3. Os monopólios multinacionais (que não transferem suas tecnologias), além de não estarem criando empregos nos países em vias de desenvolvimento onde atuam, ainda nos poluem com seus agrotóxicos e emissões de gases contaminantes, deixando-nos o custo ecológico que isso implica para as atuais e futuras gerações.
4. O problema internacional da produção, tráfico, comércio e consumo de drogas.
5. O grau de intromissão e ingerência política, ideológica, diplomática e militar que assumem os países capitalistas centrais que investem em nossos recursos estratégicos e na economia em geral.
6. A doutrina da OTAN (“direito de proteger-R2P”) e a instrumentalização da ONU para promover guerras sob pretextos de “proteção de civis”, não passa de uma reciclagem atualizada do velho sistema de mandatos da outrora Sociedade de Nações, no qual os países capitalistas ocidentais se arvoram no direito de tutelar povos e países e impor-lhes seus modelos de “democracia ocidental”.
Mas poderíamos continuar enumerando “N” aspectos que nos demonstram que o conflito social, político e armado colombiano se inscreve sim em uma LUTA INTERNACIONAL DOS POVOS POR SUA EMANCIPAÇÃO. E não estamos sós nessa luta.
O conflito colombiano está mesmo vinculado umbilicalmente ao que ocorre atualmente no mundo inteiro. Portanto, cabe a todos os povos e movimentos sociais e revolucionários latino-americanos construirmos laços de solidariedade entre nós para, em seguida, consolidá-los organicamente com os setores sociais populares europeus, norte-americanos e mundiais, claro.
Os sindicatos (para ficar em um só exemplo) devem internacionalizar seu trabalho. Uma multinacional alemã que não respeita os direitos de seus trabalhadores em território alemão não vai respeitar também na Colômbia, no Brasil ou em Singapura. Portanto, os trabalhadores alemães, colombianos, brasileiros ou singapurenses têm sim uma luta e interesses comuns únicos, internacionalista.
Cabe-nos lutar para fazer com que os trabalhadores de outros países, principalmente os brasileiros, tomem conhecimento e consciência da situação dos trabalhares e do movimento sindical colombiano e, nesse sentido, que também outros povos e trabalhadores de outros países conheçam a realidade vivida diariamente pelo povo irmão colombiano.
Torna-se necessário que muitos militantes internacionalistas, parlamentares, partidos de esquerda, sindicatos, organizações e movimentos sociais e populares visitem as regiões colombianas onde atuam os esquadrões da morte paramilitares (braço armado do narcotráfico) a serviço do Terrorismo de Estado oficial e vejam com seus próprios olhos como continuam intactos e mobilizados (foram oficialmente “desmobilizados” a partir de 2003 no regime uribista), agora reativados para massacrarem opositores em época pré-eleitoral.
O mundo precisa tomar consciência do que realmente acontece aqui na Colômbia. Urge que trabalhemos todos juntos para nos contrapor e neutralizar o marketing (terrorismo midiático) global e o lobby que o regime mafioso faz junto a governos (embaixadas), Unasul, Celac, parlamentos e justiça, além de enviar agentes encobertos e adidos militares de suas embaixadas para dar palestras e conferências a empresários e polícias, além de oferecer treinamento e doutrinação policial na Colômbia. Uma intromissão verdadeiramente vergonhosa de um regime títere do imperialismo ianque.
É necessário que pensemos em organizar uma Comissão Internacional que vá visitar os prisioneiros políticos do regime e comprovem a ignomínia e podridão do sistema carcerário colombiano atual.
Nesta urgente tarefa, os exilados e a emigração colombiana no exterior têm um papel importante a desempenhar todos os dias, unidos pela solidariedade internacional à luta do povo colombiano, que é também nossa luta.
Esta é uma tarefa de todos nós.
(De um emeio recebido)
O caráter internacionalista do conflito armado colombiano
Anncol
Durante os oito anos do governo narco-paramilitar de Álvaro Uribe Vélez (o 82º capo das drogas na lista da Defense Intelligence Agency (DIA), do próprio Pentágono), este dedicou todas as suas energias em tentar acabar com a insurreição guerrilheira comunista das FARC-Exército do Povo e “domesticar” (como um simples problema interno) o conflito social, político e armado, tratado-o com uma ótica reducionista, como se se tratasse de uma expressão delinquencial e ligado à suposta “luta contra o terrorismo”.
Em outras palavras, o “bom regime”, com seu “pobre Estado” sendo atacado por “forças terroristas”, devia se defender do “inimigo interno”, inclusive cometendo crimes.
Enquanto esse discurso era “assumido” pela opinião pública, graças a “jornalistas” a serviço do narco-paramilitarismo, como José Obdulio Gaviria (primo-irmão do capo Pablo Escobar Gaviria) e Ernesto Yamhure, o governo, com um aparato policial de inteligência bem “ajustado” interceptou ilegalmente os telefones de muitos organismos internacionais, que eram os olhos do que é conhecido como “comunidade internacional”, olhos esses que observavam “de perto” o conflito armado colombiano.
Nem o representante da ONU se salvou dos “grampos” (chuzadas). Outros organismos internacionais sofreram a mesma experiência, incluindo outro tipo de guerra suja, mais sutil, mas efetiva, como a coação, intimidações ou ameaças veladas, impedindo-lhes de entrar em certas regiões da Colômbia e asfixiando-os até tornar a situação inviável para eles para, em seguida, “convidá-los a partir” por falta de condições de segurança para realizar seu trabalho investigativo.
Lembremos que a Colômbia é um dos países mais observados pela ONU, que mantém cinco relatores especiais. E, quando estes chegam ao país, o governo procura fazer com que não tenham acesso à informação sobre o verdadeiro terrorismo: o Terrorismo de Estado. São impedidos de visitarem as regiões onde ocorreram os massacres, fazendo com que não tenham acesso a testemunhas, enfim, que não possam documentar as práticas de Terrorismo de Estado.
Estes relatores ficam em Bogotá e só vêem imagens Power Point oficiais com os dados enganosos da versão oficial do conflito. Isso também acontece com algumas ONGs internacionais e com alguns jornalistas, que armam novelões a partir de seu hotel em Bogotá.
Uribe botou para correr todo mundo, inclusive os mediadores internacionais de países amigos da Colômbia, que foram taxados, segundo a cartilha oficial, como colaboradores do terrorismo. Liquidada toda possibilidade de mediação, isolado o conflito do mundo, Uribe se dedicou a isolar a própria Colômbia do mundo, ficando com seu único aliado, seu amo e patrão norte-americano. Brigou com a Venezuela e inclusive muitas vezes tentou iniciar uma agressão armada contra a república irmã. Não duvidou um instante em ordenar o ataque ao Equador, pisoteando todo o direito internacional e todos os tratados internacionais que o próprio Estado colombiano assinou.
Com o atual presidente Santos (ex ministro da defesa de Uribe responsável pelo ataque ilegal ao Equador, que matou o Secretário de Relações Internacionais das FARC-Exército do Povo, cmte Raúl Reyes) as coisas continuam com o mesmo conteúdo, embora suas manifestações públicas tenham mudando. Passamos de uma linguagem mordaz de “coronel fazendeiro” à etiqueta do country club e dos alfaiates ingleses. Mas ambos são os mesmos “encarnados e esculpidos”. Com roupagens diferentes.
Santos continua procurando esconder o conflito colombiano, indo mais além: acabou conseguindo neutralizar o próprio presidente Chávez (que havia reconhecido oficialmente o caráter legítimo e beligerante das FARC-Exército do Povo em 2008), neutralização essa que havia iniciado com Uribe com a chantagem das “provas” obtidas dos famosos “computadores atômicos” (confiscados ilegalmente no ataque ao Equador, “provas” julgadas ilegais e sem validez alguma pela própria Corte Suprema da Colômbia).
Tão mafioso e chantagista o Estado colombiano que o atual inquilino da Casa de Nariño (sede da Presidência da República), Juan Manuel “Chuck” Santos, conseguiu infiltrar (sem uma reação do Brasil e demais países? Por quê?) a própria UNASUL com a senhora María Emma, neutralizando a “liderança” da Venezuela, intimidando-a e obrigando-a a mudar alguns discursos anteriores.
Com essa política internacional bem tramada pelo regime colombiano, contando com as inconsistências e vacilações ideológicas de Chávez (pressionado por quem?), “Chucky” Santos acabou legitimando o golpe de Estado em Honduras, levando esse país de volta ao seio da OEA (esse obsoleto ministério das neo-colônias ianques), de onde tinha sido expulso depois do golpe de 2009 contra o Presidente Constitucional Manuel Zelaya, ressuscitando um cadáver e colocando-o de novo nas mãos de Obama e, de passagem, legitimando um presidente golpista. “Três coelhos com uma única cajadada!”
Enquanto isso ocorre, Santos instrumentaliza a suposta boa amizade com Chávez para continuar expandindo sua “operação condor” nativa, estendendo a repressão e o terrorismo de Estado além fronteiras colombianas.
Foi nesse contexto e dinâmica que o nosso diretor, Joaquín Pérez Becerra, foi seqüestrado na Venezuela e entregue aos aparatos terroristas do Estado colombiano.
Santos se jacta dissimuladamente com muita ironia e em privado por ter conseguido “dobrar a munheca” do ingênuo Chávez. E, para completar, sua ministra de relações exteriores, Holguín, está “encantada” com o da Venezuela, Nicolás Maduro, que está se curvando aos encantos da beleza colombiana, deixando de lado o que se joga no xadrez político com uma oligarquia criminosa e mafiosa como a colombiana.
A neutralização de Chávez implica em vários perigos para o processo político venezuelano, especialmente quando Chávez se deixa rodear de tantos incompetentes e ineptos como Maduro e como Andrés Izarra, ministro das comunicações, embora este não seja propriamente o tema destas reflexões.
Continuemos: escondido e isolado o conflito armado colombiano, a oligarquia do país se sente desobrigada de certos compromissos assumidos internacionalmente e projeta para o mundo a imagem de democracia madura, apta para o investimento estrangeiro (inclusive brasileiro). E essa “confiança investidora” se traduz em uma entrega total de nosso patrimônio ao capital monopolista internacional. A elite econômica oligárquica procura isolar (esconder) o conflito armado interno ao mesmo tempo em que amplia seus contatos e relações econômicas e políticas para legitimar seu projeto hegemônico de economia de mercado dependente.
Diante disso tudo, a tarefa dos colombianos que estamos comprometidos com a saída política para o conflito, é ler o mapa mundi e não perder de vista a perspectiva e a contextualização internacional em torno da solução política para o conflito colombiano.
Continuar com essa visão simplista e provinciana do conflito não ajuda em nada, ao contrário, facilita o trabalho do regime oligárquico.
É necessário contextualizar internacionalmente o conflito armado colombiano por várias e simples razões:
1. As potências capitalistas mundial mantêm uma luta sangrenta pelo controle das matérias primas do terceiro mundo, particularmente da América Latina.
2. Na divisão internacional do trabalho pelo capital monopolista, países de “capitalismo tardio” e periférico como a Colômbia, Brasil e outros, foram designados para cumprir o papel de provedores de matérias primas (petróleo, esmeraldas, aço, minério de ferro, aço, alumínio, cobre, ouro, banana, café, soja, carne, flores, madeiras de lei, etc.;) sem valor agregado, dada a dependência tecnológica de nossos países.
3. Os monopólios multinacionais (que não transferem suas tecnologias), além de não estarem criando empregos nos países em vias de desenvolvimento onde atuam, ainda nos poluem com seus agrotóxicos e emissões de gases contaminantes, deixando-nos o custo ecológico que isso implica para as atuais e futuras gerações.
4. O problema internacional da produção, tráfico, comércio e consumo de drogas.
5. O grau de intromissão e ingerência política, ideológica, diplomática e militar que assumem os países capitalistas centrais que investem em nossos recursos estratégicos e na economia em geral.
6. A doutrina da OTAN (“direito de proteger-R2P”) e a instrumentalização da ONU para promover guerras sob pretextos de “proteção de civis”, não passa de uma reciclagem atualizada do velho sistema de mandatos da outrora Sociedade de Nações, no qual os países capitalistas ocidentais se arvoram no direito de tutelar povos e países e impor-lhes seus modelos de “democracia ocidental”.
Mas poderíamos continuar enumerando “N” aspectos que nos demonstram que o conflito social, político e armado colombiano se inscreve sim em uma LUTA INTERNACIONAL DOS POVOS POR SUA EMANCIPAÇÃO. E não estamos sós nessa luta.
O conflito colombiano está mesmo vinculado umbilicalmente ao que ocorre atualmente no mundo inteiro. Portanto, cabe a todos os povos e movimentos sociais e revolucionários latino-americanos construirmos laços de solidariedade entre nós para, em seguida, consolidá-los organicamente com os setores sociais populares europeus, norte-americanos e mundiais, claro.
Os sindicatos (para ficar em um só exemplo) devem internacionalizar seu trabalho. Uma multinacional alemã que não respeita os direitos de seus trabalhadores em território alemão não vai respeitar também na Colômbia, no Brasil ou em Singapura. Portanto, os trabalhadores alemães, colombianos, brasileiros ou singapurenses têm sim uma luta e interesses comuns únicos, internacionalista.
Cabe-nos lutar para fazer com que os trabalhadores de outros países, principalmente os brasileiros, tomem conhecimento e consciência da situação dos trabalhares e do movimento sindical colombiano e, nesse sentido, que também outros povos e trabalhadores de outros países conheçam a realidade vivida diariamente pelo povo irmão colombiano.
Torna-se necessário que muitos militantes internacionalistas, parlamentares, partidos de esquerda, sindicatos, organizações e movimentos sociais e populares visitem as regiões colombianas onde atuam os esquadrões da morte paramilitares (braço armado do narcotráfico) a serviço do Terrorismo de Estado oficial e vejam com seus próprios olhos como continuam intactos e mobilizados (foram oficialmente “desmobilizados” a partir de 2003 no regime uribista), agora reativados para massacrarem opositores em época pré-eleitoral.
O mundo precisa tomar consciência do que realmente acontece aqui na Colômbia. Urge que trabalhemos todos juntos para nos contrapor e neutralizar o marketing (terrorismo midiático) global e o lobby que o regime mafioso faz junto a governos (embaixadas), Unasul, Celac, parlamentos e justiça, além de enviar agentes encobertos e adidos militares de suas embaixadas para dar palestras e conferências a empresários e polícias, além de oferecer treinamento e doutrinação policial na Colômbia. Uma intromissão verdadeiramente vergonhosa de um regime títere do imperialismo ianque.
É necessário que pensemos em organizar uma Comissão Internacional que vá visitar os prisioneiros políticos do regime e comprovem a ignomínia e podridão do sistema carcerário colombiano atual.
Nesta urgente tarefa, os exilados e a emigração colombiana no exterior têm um papel importante a desempenhar todos os dias, unidos pela solidariedade internacional à luta do povo colombiano, que é também nossa luta.
Esta é uma tarefa de todos nós.
(De um emeio recebido)
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Baden
O violão vadio exuberante de Baden Powell
Há 11 anos, no dia 26 de setembro, a música popular brasileira perdia um dos seus grandes músicos, o violonista Baden Powell de Aquino.
Por Marcos Aurélio Ruy
Baden Powell, juntamente com Vinicius de Moraes, criou o chamado afro-samba, numa das principais parcerias da música popular brasileira. Baden percebeu que os “cânticos afros tinham semelhança com os gregorianos e passou a compor melodias em cima das duas vertentes”, afirma texto do site www.biscoitofino.com.br.
Baden, que estudava música gregoriana, entusiasmou-se pelo candomblé e a sua música, e Vinicius era encantado com o samba de roda e o candomblé da Bahia. Os dois, que se conheceram em 1962, gravaram o LP “Afro-sambas” em 1966, tornando-se uma das parcerias mais profícuas da MPB. É desse disco o clássico “Canto de Ossanha”.
Seu pai lhe deu esse nome por que seu pai era fã do escotismo do general britânico Robert Stephenson Smyth Baden-Powell. Bem, o menino não tem culpa disso. Baden nasceu em Varre-Sai, distrito do município de Itaperuna no Norte do estado do Rio de Janeiro. Mas passou sua infância em Vila Isabel e São Cristóvão, na cidade do Rio, onde teve contato com sambistas de primeira linha. Também levado pelo amigo capoeirista Canjiquinha, aproximou-se da capoeira e do candomblé, utilizando elementos dessas duas formas de expressão artística, religiosa e corporal em sua arte.
Influências do grande músico
Fou muito influenciado pelo guitarrista de jazz, nascido na Bélgica e cigano, Django Reinhardt, considerado um dos maiores guitarristas do mundo, criador do gypsy jazz, ou jazz cigano. E pelo guitarrista norte-americano Barney Kessel, também de jazz, pelo músico alemão jazzístico Joachim Berendt, pelo saxofonista norte-americano Stan Getz, um dos maiores divulgadores da bossa nova nos Estados Unidos.
Getz chegou a compor em parceria com João Gilberto e Tom Jobim. Ainda teve forte influência do instrumentista de corda paulista Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, e do violonista e compositor carioca de chorinho, Dilermando Reis, entre outros grandes artistas.
Baden estudou canto gregoriano com o maestro Moacyr Santos e da mistura da música clássica com a popular brasileira tornou-se um dos nossos principais músicos. O violonista fluminense sucumbiu ao alcoolismo e faleceu no dia 26 de setembro de 2000, aos 63 anos de idade.
Suas canções e o seu modo inovador de tocar violão deixam saudades em todos os amantes da MPB, um dos grandes nomes de uma vertente da bossa nova, com influência sobre uma gama de autores compositores de gerações posteriores.
Alguns vídeos e letras de suas obras:
Canto de Ossanha (com Vinicius de Moraes, 1966)
O homem que diz "dou" não dá, porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz "vou" não vai, porque quando foi já não quis
O homem que diz "sou" não é, porque quem é mesmo é "não sou"
O homem que diz "tô" não tá, porque ninguém tá quando quer
Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Amigo senhor, saravá, Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá, que muito vai se arrepender
Pergunte ao seu Orixá, o amor só é bom pra valer
Pergunte ao seu Orixá, o amor só é bom se doer
Vai, vai, vai, vai, amar
Vai, vai, vai, sofrer
Vai, vai, vai, vai, chorar
Vai, vai, vai, dizer
Que eu não sou ninguém de ir em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Samba da Bênção (com Vinicius de Moraes, 1962)
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me provar que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assim mesmo assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Vinicius de Moraes, por exemplo, o capitão do mato
Poeta e ex-diplomata
Como ele mesmo diz:
É o branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior babalorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
(vermelho.org)
Há 11 anos, no dia 26 de setembro, a música popular brasileira perdia um dos seus grandes músicos, o violonista Baden Powell de Aquino.
Por Marcos Aurélio Ruy
Baden Powell, juntamente com Vinicius de Moraes, criou o chamado afro-samba, numa das principais parcerias da música popular brasileira. Baden percebeu que os “cânticos afros tinham semelhança com os gregorianos e passou a compor melodias em cima das duas vertentes”, afirma texto do site www.biscoitofino.com.br.
Baden, que estudava música gregoriana, entusiasmou-se pelo candomblé e a sua música, e Vinicius era encantado com o samba de roda e o candomblé da Bahia. Os dois, que se conheceram em 1962, gravaram o LP “Afro-sambas” em 1966, tornando-se uma das parcerias mais profícuas da MPB. É desse disco o clássico “Canto de Ossanha”.
Seu pai lhe deu esse nome por que seu pai era fã do escotismo do general britânico Robert Stephenson Smyth Baden-Powell. Bem, o menino não tem culpa disso. Baden nasceu em Varre-Sai, distrito do município de Itaperuna no Norte do estado do Rio de Janeiro. Mas passou sua infância em Vila Isabel e São Cristóvão, na cidade do Rio, onde teve contato com sambistas de primeira linha. Também levado pelo amigo capoeirista Canjiquinha, aproximou-se da capoeira e do candomblé, utilizando elementos dessas duas formas de expressão artística, religiosa e corporal em sua arte.
Influências do grande músico
Fou muito influenciado pelo guitarrista de jazz, nascido na Bélgica e cigano, Django Reinhardt, considerado um dos maiores guitarristas do mundo, criador do gypsy jazz, ou jazz cigano. E pelo guitarrista norte-americano Barney Kessel, também de jazz, pelo músico alemão jazzístico Joachim Berendt, pelo saxofonista norte-americano Stan Getz, um dos maiores divulgadores da bossa nova nos Estados Unidos.
Getz chegou a compor em parceria com João Gilberto e Tom Jobim. Ainda teve forte influência do instrumentista de corda paulista Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, e do violonista e compositor carioca de chorinho, Dilermando Reis, entre outros grandes artistas.
Baden estudou canto gregoriano com o maestro Moacyr Santos e da mistura da música clássica com a popular brasileira tornou-se um dos nossos principais músicos. O violonista fluminense sucumbiu ao alcoolismo e faleceu no dia 26 de setembro de 2000, aos 63 anos de idade.
Suas canções e o seu modo inovador de tocar violão deixam saudades em todos os amantes da MPB, um dos grandes nomes de uma vertente da bossa nova, com influência sobre uma gama de autores compositores de gerações posteriores.
Alguns vídeos e letras de suas obras:
Canto de Ossanha (com Vinicius de Moraes, 1966)
O homem que diz "dou" não dá, porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz "vou" não vai, porque quando foi já não quis
O homem que diz "sou" não é, porque quem é mesmo é "não sou"
O homem que diz "tô" não tá, porque ninguém tá quando quer
Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Amigo senhor, saravá, Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá, que muito vai se arrepender
Pergunte ao seu Orixá, o amor só é bom pra valer
Pergunte ao seu Orixá, o amor só é bom se doer
Vai, vai, vai, vai, amar
Vai, vai, vai, sofrer
Vai, vai, vai, vai, chorar
Vai, vai, vai, dizer
Que eu não sou ninguém de ir em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Samba da Bênção (com Vinicius de Moraes, 1962)
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me provar que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assim mesmo assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Vinicius de Moraes, por exemplo, o capitão do mato
Poeta e ex-diplomata
Como ele mesmo diz:
É o branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior babalorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
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